quinta-feira, janeiro 15, 2026

Crítica | Apesar das boas atuações, ‘Os Sete Relógios de Agatha Christie’ falha em adaptar o clássico da Dama do Crime

CríticasCrítica | Apesar das boas atuações, 'Os Sete Relógios de Agatha Christie' falha em adaptar o clássico da Dama do Crime

Agatha Christie é uma das autoras mais célebres da história – e não é por qualquer motivo que é conhecida como a Dama do Crime. Ao longo de sua ilustre carreira, Christie assinou clássicos da literatura de mistério como ‘Assassinato no Expresso do Oriente’, ‘…E Não Sobrou Nenhum’, ‘A Noite das Bruxas’ e diversos outros romances que caíram no gosto popular e da crítica. Até hoje, seus escritos são lembrados e traduzidos em diversas adaptações para os streamings e para os cinemas, sendo o mais recente deles a minissérie de três episódios Os Sete Relógios de Agatha Christie, que chegou ao catálogo da Netflix nesta última quinta-feira, 15 de janeiro.

Inspirado no livro O Mistério dos Sete Relógios, lançado em 1929, o projeto nos leva para a aristocracia britânica do início do século XX e acompanha a jovem Lady Eileen “Bundle” Brent (Mia McKenna-Bruce), que vive com a mãe, Lady Caterham (Helena Bonham Carter), em um imponente casarão. Durante uma das festas celebratórias em que seus amigos e outros membros da elite se reúnem, Bundle cruza caminho com o charmoso Gerry Wade (Corey Mylchreest), membro do Ministério das Relações Exteriores que trabalha para George Lomax (Alex Macqueen) e que nutre de uma afeição amorosa pela moça. Prestes a ser pedida em casamento, Bundle vê seu mundo se desmantelar quando, na manhã seguinte, Gerry aparece morto na cama.



Após as investigações da polícia, chega-se à conclusão de que Gerry tirou a própria vida ao ingerir uma quantidade perigosa de sonífero. Porém, Bundle sabe que algo não soa certo, visto que o rapaz nunca precisou de medicamentos para poder dormir, visto que tinha um sono muito pesado. Mais do que isso, alguns objetos parecem estar fora de lugar, enquanto sete despertadores programados para dispararem na mesma hora – uma peça pregada pelos amigos de Gerry, Ronny Devereux (Nabhaan Rizwan) e Bill Eversleigh (Hughie O’Donnell) – foram realinhados de maneira estranha sobre a cômoda. Para completar o estranho cenário, uma carta escrita pela metade mostra que Gerry estava escrevendo à irmã, Lorraine (Ella-Rae Smith), falando sobre algo conhecido como os Sete Relógios.

Não demora muito até que Bundle decida investigar por conta própria o que está acontecendo, pedindo a ajuda de Ronny, Bill, de Jimmy Thesiger (Edward Bluemel) e do misterioso oficial da Interpol, o Superintendente Battle (Martin Freeman), para descobrir o que de fato significa essa misteriosa frase – e provar que Gerry foi assassinado. À medida que navega pelas complexas engrenagens políticas da hierarquia mundial, a jovem descobre que a morte de seu amado pode ter sido apenas o início de uma grande conspiração. E é em meio a essa intrincada atmosfera que o diretor Chris Chibnall, conhecido por seu trabalho em obras como Doctor Who e ‘Torchwood’, tenta honrar o romance original de Christie – ainda que falhe em construir uma história que merecia ser contada.

Responsável também pelo roteiro, Chibnall nos apresenta a um interessante primeiro ato que nos apresenta aos personagens e aos principais suspeitos da narrativa, mergulhando nas clássicas incursões detetivescas britânicas que, volta e meia, voltam a enfeitar o circuito seriado e fílmico. Afastando-se da sisudez costumeira das produções do gênero, o cineasta constrói um panorama a princípio regado a tons vibrantes de dourado e diamante que pincelam uma fachada de bonança, antes de mergulhar na melancolia de uma paleta sóbria e inerte com a morte de Gerry.  Todavia, essas pulsões criativas são logo deixadas de lado por uma quantidade inexplicável de convencionalismos e de ocasionalidades que destituem o enredo de Christie de sua genialidade.

Tentando navegar entre a comédia, o mistério e o drama, o cineasta acaba não acertando o tom na maioria das sequências, construindo diálogos expositivos demais para que o aspecto whodunnit que esperamos de produções como essa seja mantido. Enquanto McKenna-Bruce posa como uma joia a ser admirada, fornecendo uma característica ácida e rápida à personalidade de Bundle, é notável como a superficialidade é forte o bastante para nos privar de apreciar as centelhas de beleza do enredo – e o mesmo pode ser dito acerca da firme presença de nomes como Bonham-Carter, que diverte-se no papel de Lady Caterham, Bluemel como o inquietante e ávido Jimmy, e outros.

A minissérie transforma-se em uma sucessão de eventos impalpáveis demais para serem considerados críveis e, ao estender-se por quase três horas no total, não justifica sua existência. Ainda que se valha das já mencionadas ótimas performances e de uma ambientação impecável que de fato nos arremessa para o auge dos anos 1920 em Londres, talvez a melhor saída tivesse sido reimaginar a história original em algo mais constrito e reduzido, aproveitando o imponente cenário aristocrático para colocar os personagens dentro de um espectro quase labiríntico e inescapável, mesmo se afastando da essência estrutural do enredo.

Com exceção de pontuais momentos de criatividade, Os Sete Relógios de Agatha Christie é uma produção esquecível do catálogo da Netflix que não tinha qualquer necessidade de ser como é. Caso fosse construído como um longa-metragem, acredito que as engrenagens se encaixariam com mais fluidez e o resultado seria muito mais aprazível do que o que nos foi dado.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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