Até antes da pandemia, a ideia de confinamento não era uma situação que passava recorrentemente na cabeça das pessoas. Quando muito, lembrava-se desse fato referido ao Holocausto judeu, retratado na literatura e no audiovisual marcadamente pela experiência da jovem Anne Frank, que teve que se esconder com sua família para poder sobreviver. Entretanto, essa não é a única experiência de guerra e sobrevivência da era contemporânea, e, aos poucos, outras narrativas de vivências dramáticas das vítimas das muitas guerras do século XX começam também a ganhar espaço na artes, como pode ser visto em ‘Árvores da Paz’, novo drama inspirado em eventos reais que chegou essa semana à Netflix – e já anda conquistando os espectadores.


Durante três anos, entre 1990 e 1994, Ruanda entrou em uma profunda Guerra Civil que resultou no genocídio de mais de 1 milhão de civis. Enquanto Tutsis perseguiam os Hutus e Hutus moderados pelo país, massacrando homens, mulheres e crianças, algumas pessoas tentaram desesperadamente se esconder e sobreviver à incabível guerra. É nesse contexto que conhecemos o casal François (Tongayi Chirisa) e Annick (Eliane Umuhire), enquanto ela se esconde no sótão da cozinha por ser uma hutu moderada, e ele, como professor de hutus e tutsis, tenta articular meios de sobrevivência na escola. Grávida, Annick se esconde no sótão achando que ficaria por ali por uns dois ou três dias, na esperança da chegada da ONU, que prometeu libertar o país. Na espera, acabam se juntando a ela a freira Jeanette (Charmaine Bingwa), a voluntária estadunidense Peyton (Ella Cannon) e a jovem irritadiça Mutesi (Bola Koleosho), e, com o passar do tempo, as quatro terão que racionar a comida e sobreviver no silêncio pelo período de quase três meses.


O que mais chama a atenção em ‘Árvores da Paz’ é que a diretora e roteirista Alanna Brown entende o poder semiótico do cinema e, mesmo contando uma história de dor e sofrimento que aconteceu de verdade, a diretora não busca explorar o suplício como forma de conexão com o espectador. Ao contrário, ela faz uma importante e corajosa escolha de não retratar as violências de maneira gráfica, deixando-a em segundo plano: para contar a história de seu filme, Alanna centra sua câmera na sobrevivência das personagens, não na violência ao redor que as ameaça. Assim, todas as ações indiretas que sabemos estar acontecendo (vozes de homens, tiros, gritos, latidos, etc) são inseridas através de um ótimo trabalho de som, que, dessa forma, participa ativamente na construção do enredo como a figura de um vilão não visto no filme.

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Ao contrário de produções que também se valem do silêncio como personagem, tipo ‘Um Lugar Silencioso’ e ‘Jojo Rabbit’, o drama em ‘Árvores da Paz’ é construído de maneira a elevar a força das quatro mulheres sobreviventes, mostrando como a dororidade (conceito de Vilma Piedade que elucida a forma empática como mulheres negras transformam a dor em potência) se torna a bengala na qual esse pequeno grupo precisará se apoiar para sobreviver ao tempo do confinamento, apesar de suas diferenças pessoais. Dramático, porém sempre buscando trazer luz às sombras em que as personagens se encontram, ‘Árvores da Paz’ é um filme de guerra extremamente emocionante e forte, que certamente fará você chorar.

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