Crítica| As Rainhas da Torcida – Diane Keaton, cheerleaders e amizade feminina

Crítica| As Rainhas da Torcida – Diane Keaton, cheerleaders e amizade feminina

Nota:


“Nasce, cresce, reproduz (ou não) e morre”: essa é a trajetória básica do ser-humano que todo mundo aprende no colégio. No entanto, entre as lacunas de cada acontecimento, existe uma vida inteira de sonhos e expectativas que esperamos cumprir antes de dar “adeus” ao mundo – tanto que o medo de não viver nada do que foi planejado é uma das principais razões para a tristeza de muita gente. Para alguns, existe uma idade limite para conseguir realizar tudo o que se quer, mas quem disse que não dá para ser feliz e se reencontrar já na terceira idade? Essa é justamente a premissa da comédia As Rainhas da Torcida, que conta com ninguém menos que Diane Keaton como a estrela principal.

Dirigido por Zara Hayes, o longa apresenta ao público Martha (Diane Keaton), que tem pouco tempo de vida por estar sofrendo com um câncer em nível avançado. Depois de se desfazer da maioria dos seus bens por não ter um companheiro ou filhos para se preocuparem com eles depois de sua partida, ela decide interromper o tratamento de quimioterapia e passar seus últimos dias em uma comunidade de repouso para idosos. A princípio, sua ideia era apenas se afastar de tudo e todos para relaxar com sua própria solidão, mas a aproximação com sua simpática vizinha Sheryl (Jacki Weaver) a faz rever suas prioridades e decidir revisitar um sonho que, hoje, parecia impossível por ser distante demais: o de finalmente se tornar uma líder de torcida. Quando era jovem, Martha precisou abrir mão desse objetivo para cuidar de sua mãe; mas, agora, lutando contra a ideia de que só garotas novas podem se arriscar nessa modalidade de dança, ela conta com o apoio de sua nova amiga e monta um clube de mulheres de mais de 60 anos que querem virar cheerleaders.

Como já era esperado, o grupo tem que lidar com a oposição de grande parte da organização da casa de repouso, com familiares que consideram a atividade inadequada (mais por não quererem ver a mãe idosa feliz que por qualquer outro bom motivo, diga-se de passagem) e com uma apresentação vexatória que viralizou no Youtube graças à uma cheerleader adolescente mal intencionada. Porém, como “superação” é a palavra-chave aqui, Martha não desiste dos seus objetivos e continua com o grupo em segredo para mostrar para todos – e principalmente para si mesma – que não existe idade para superar desafios e ser feliz. Assim, com o apoio inicialmente não muito voluntário da jovem líder de torcida Chloe (Alisha Boe, a Jessica de 13 Reasons Why) e as mixagens musicais do neto de Sheryl (Ben, interpretado por Charlie Tahan), o grupo enfrenta suas limitações e continua os ensaios para se apresentar em uma grande competição para líderes de torcida maiores de 18 anos (não colocaram limite de idade aqui, certo?).

Seguindo um ritmo agradável e com um grupo de idosas cativante, As Rainhas da Torcida cumpre o que propõe ao longo dos 91 minutos de filme. Ainda que não entregue uma análise profunda sobre envelhecer por se tratar de uma comédia leve, consegue trazer sutilezas que fazem refletir sobre o quão efêmera é a vida e sobre a possibilidade de se reinventar mesmo quando ela parece já estar no fim. Além de Martha, que decide ir atrás de um sonho antigo em um período em que está com o tempo de vida contado, o longa também traz uma idosa que finalmente pode ser feliz após se libertar de um relacionamento abusivo (de forma cômica e bem superficial, sim; mas ainda necessária) e outra que não podia fazer suas próprias escolhas por estar presa a um filho autoritário que parecia estar mais preocupado com suas finanças do que com qualquer outro aspecto de sua vida. Através da personagem de Jacki Weaver – que no início até incomoda com o jeito efusivo demais, mas que depois logo conquista -, também toca na liberdade sexual da mulher madura.

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Com tudo isso, por mais que não aborde especificamente questões feministas e use da rivalidade para alguns plots, a narrativa ainda permite refletir sobre pautas do movimento ao ver a redenção de mulheres que poderiam se considerar “velhas demais” para irem atrás do que querem. E a sororidade – que é a empatia e a importante união dentro do gênero – também aparece em uma bonita cena em que Sheryl defende Chloe com unhas e dentes de um xingamento (“slut-shaming“) do desagradável filho de uma das idosas do grupo. Isso sem falar na forte amizade entre as personagens de Diane Keaton e Jacki Weaver, que sem dúvidas é um dos principais destaques dentro da trama.

Por fim, em meio a pompons, passinhos de dança memoráveis, redescobertas, amizades e uma Diane Keaton que nunca decepciona e dá a naturalidade perfeita à personagem, Poms (no título original) aparece como uma boa surpresa para quem esperava apenas uma comédia vazia sobre uma versão idosa de As Apimentadas. Por mais que use de elementos caricatos na composição de alguns personagens e não aprofunde questões que levanta (já que não era esta sua intenção), cumpre o papel de divertir e de emocionar ao nos fazer pensar em como a vida pode ser boa até o último suspiro. O famoso clichê “nunca é tarde para ser feliz” nunca fez tanto sentido.



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