Crítica | ‘Avatar: O Último Mestre do Ar’ retorna com uma 2ª temporada marcada pela FADIGA criativa

São poucas as pessoas que nunca ouviram falar da aclamada animação ‘Avatar: A Lenda de Aang, que não apenas se tornou um dos carros-chefes da Nickelodeon, como um estandarte do gênero ao apresentar ao mundo uma densa exploração política e social regada a incríveis sequências de ação e personagens envolventes que refletem o duradouro legado da atração no cenário do entretenimento. E, acompanhando a onda de adaptações em live-action das últimas duas décadas, a série recebeu um remake supervisionado pela Netflix que estreou em 2024 sob o título Avatar: O Último Mestre do Ar.

Fincando os dentes em uma sólida e apaixonada reconstituição dos explosivos eventos da animação original, o live-action estrelado por Gordon Cormier como Aang, o último dobrador dos Nômades do Ar e a nova encarnação do poderoso Avatar – a única entidade capaz de manter a paz e a ordem em meio à ascensão descontrolada e mortal da Nação do Fogo -, encontrou sucesso por se manter fiel à essência desse vibrante cosmos à medida que explorou outras camadas. Agora, a gigante do streaming nos convida a mergulhar em uma segunda temporada que, apesar de acertar em alguns pontos, nos deixa com um gostinho agridoce de frustração ao não sabe exatamente como delinear suas múltiplas e impulsivas tramas.

O ciclo anterior se encerrou com uma gloriosa e emocionante batalha entre a Nação do Fogo e a Tribo da Água do Norte, em que Aang incorporou o estado Avatar em um ímpeto destrutivo que acendeu um alerta no protagonista. Nos novos episódios, ele caminha para se especializar nas Dobras de Terra após Katara (Kiawentiio) tê-lo ajudado com as Dobras de Água – mas o caminho é mais tortuoso do que o esperado. Recusado ser auxiliado por seu amigo de longa data, Bumi (Utkarsh Ambudkar), que permanece preso em Omashu, Aang encontra em uma jovem dobradora de terra cega conhecida como Toph Beifong (Miyako) a possibilidade de continuar investindo seu treinamento, mesmo encontrando certa resistência inicial, considerando o status real da garota.

Como podemos imaginar, Toph se junta a Aang, Katara e Sokka (Ian Ousley) na interminável empreitada contra o Lorde Ozai (Daniel Dae Kim) e seus asseclas, viajando para a impenetrável cidade de Ba Sing Sei a fim de alertá-los de uma investida destrutiva da Nação do Fogo – cujo plano foi arquitetado pela psicótica filha de Ozai, a Princesa Azula (Elizabeth Yu), uma poderosa dobradora de fogo que consegue atirar raios. Determinada não apenas a destruir o Avatar, como também a encontrar seu irmão exilado, Zuko (Dallas Liu), e o ex-General Iroh (Paul Sun-Hyung Lee), que foi taxado como traidor e inimigo, Azula posa como a principal ameaça dos heróis nessa temporada.

O segundo ciclo começa de maneira sólida ao dar ares de uma remodelação da clássica estrutura da Jornada do Herói explorada na iteração anterior, que seguiu todos os moldes desse “manual de instruções” para nos apresentar ao universo de ‘O Último Mestre do Ar’. Aqui, o showrunners Albert Kim e Christine Boylan têm todos os elementos necessários para se aprofundar nos arcos de amadurecimento de cada personagem, porém, mesmo com sete capítulos de mais de uma hora cada, não conseguem se desvencilhar de atribulações técnicas e o início de uma fadiga criativa que não cumpre com as expectativas e resolve jogar no seguro.

Em outras palavras, a série singra entre acertos e erros de forma muito similar: de um lado, a controversa e alienável estrutura político-social de Ba Sing Se ganha palanque notável, colocando o Rei Kuei (Justin Chien) em uma espécie de estado de torpor que renega a guerra impulsionada pela Nação do Fogo, fomentando a hierarquia de seu reinado ao passo que silencia aqueles que se opõe a ele e aos ideais que representam – e que tem sua representação máxima na figura de Joo Dee (Amanda Zhou), que funciona como “guia turística” do local e uma espiã de seus superiores.

De outro, os fracos diálogos parecem ter saído de qualquer história de fantasia e ação dos últimos trinta anos, apoiando-se em convencionalismos baratos que, inclusive, atuam negativamente na atuação de certos membros do elenco. Cormier, tendo nos presenteado com uma sólida e envolvente incursão na temporada predecessora, é engolfado em uma sucessão de falas que nos causam estranhamento – e engolido pela presença de Kiawentiio e Liu. De qualquer maneira, é preciso dar o destaque merecido à performance singular e espetacular de Yu como a imponente e perigosa Azula, roubando os holofotes em todas as cenas em que aparece; e Lee em uma solene e dramática subtrama envolvendo Iroh e seu arco de culpa e redenção, reiterando um dos melhores personagens de todo o universo ‘Avatar’.

Ousley e Miyako também têm seus momentos de glória, mas ficam apagados em uma unidimensionalidade tristonha e que não explora o potencial de seus respectivos personagens. Toph, inclusive, tem sua personalidade ácida e contundente diluída em um coming-of-age que, apesar de ter suas centelhas de comprometimento criativo, nunca alcança o que esperaríamos de uma das heroínas mais marcantes da atração.

A 2ª temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar reduz o épico escopo da temporada de estreia e nos arremessa a uma zona de conforto que não traz nada de novo e até mesmo remodela pontos importantes da animação original a fim de investir esforços em uma continuidade de fórmulas cansativas – e que nos deixa incertos quanto à qualidade futura do live-action.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.