Cuidado: spoilers à frente.
O cenário do terror contemporâneo vem passando por uma revitalização desde meados da década passada, seja no cinema ou na televisão – e um dos subgêneros que vem ganhando espaço é o das creepypastas. Originadas em fóruns online, essas macabras e excêntricas histórias começaram a receber sólidas adaptações como ‘Channel Zero’, de Nick Antosca, que construiu uma série antológica que expandiu esses microcosmos em arrepiantes narrativas, ou o longa-metragem ‘Slenderman’, que se apropriou de uma das figuras mais populares da cultura cibernética. Agora, está na hora de explorarmos uma outra história que ganhou o nome de ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ e que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 28 de maio.
A produção parte de uma creepypasta que se tornou bastante conhecida no site 4chan, em que pessoas começaram a compartilhar fotos de lugares espaçosos, labirínticos e estranhamente angustiantes, como escritórios abandonados imbuídos em luzes amareladas e ruidosas, ou estacionamentos vazios e escuros. A partir daí, o jovem realizador Kane Parsons deu vida a uma webserie em 2022 que angariou fãs ao redor do mundo e que se apoiou no terror found footage e no horror analógico para construir uma mitologia que explorou os espaços liminares e a própria angústia humana sobre o desconhecido.

A ótima recepção do projeto chamou a atenção dos executivos da A24, que logo fecharam contrato com Parsons para uma antecipada adaptação cinematográfica que poderia ou dar muito certo, ou dar muito errado. Felizmente, ao se sagrar o diretor mais jovem da história do estúdio, Parsons conseguiu superar as expectativas que manter o desolado espectro de sua webserie original intacto sem se render aos convencionalismos de gênero e sem se apoiar em explicações cansativas e redundantes para o comodismo do público. Dessa forma, ‘Backrooms’ emerge como um dos melhores terrores do ano – mas, com certeza, irá dividir o público e a crítica.
A trama nos apresenta a Clark (Chiwetel Ejiofor), dono de uma loja de móveis que se divorciou há pouco tempo e que se vê num limbo existencial ao não ter alcançado nenhum de seus objetivos, sentindo que o tempo corre mais rápido dia a dia. Expulso de casa pela ex-mulher e forçado a dormir no próprio negócio (que vai de mal a pior), Clark descobre uma espécie de dimensão alternativa que se esconde no porão da loja, abrigando um espaço aparentemente infinito de corredores e de salas bizarras que, apesar de assemelharem com a realidade, exalam uma sensação derradeira e melancólica de fim.

O homem, então, conta sobre seu achado para a terapeuta Mary Kline (Renate Reinsve), que lida com seus próprios traumas à medida que uma conturbada infância continua vindo à tona para assombrá-la. Mary, a princípio, não acredita em seu paciente – mas alguns dias depois recebe uma estranha mensagem de voz que a leva até a loja e abre seus olhos para uma dimensão interminável de incertezas e de um crescente medo que não apenas está ligada às estranhas criaturas que lá vivem, mas ao caótico turbilhão de emoções e de arrependimentos em que Charles se transformou.
Parsons soa como a escolha perfeita para inaugurar uma nova era do terror dentro da A24, acompanhando diversos outros realizadores que resolvem esquadrinhar o território do suspense psicológico e do horror atmosférico. Em outras palavras, é notável como o jovem diretor, que também fica responsável pelo roteiro, não cria jumpscares óbvios, e sim premedita um encontro entre a realidade e a loucura através da existência de entidades sobrenaturais que se escondem nos corredores das backrooms. O complexo de corredores abriga desde piscinas destroçadas até profusas decorações de Natal, bebendo de um cotidiano que se desenrola sem preocupações lá em cima enquanto revela a desordem da psique humana – que, nesse caso, parte das pulsões autodestrutivas e destrutivas de Clark.

Cada engrenagem é pensada com cuidado e, ainda que o enredo demore a engrenar no primeiro ato, desenrola-se com uma preciosidade cênica que, sequência a sequência, engolfa o público numa angústia fervorosa e numa compreensão assustadora do que se esconde para longe dos nossos olhos. Seja na tétrica trilha sonora que Parsons assina ao lado de Edo Van Breemen, seja na sufocante e opressiva fotografia de Jeremy Cox, os espectadores, assim como os personagens principais, se veem num universo sem saída que os consome até que o Não-Lugar se torne o único Lugar (uma complacência tristonha e ao mesmo tempo confortável que torna Clark e Mary tão diferentes entre si).
Enquanto Ejiofor faz um ótimo trabalho ao nos convidar para a espiralada montanha-russa de sentimentos e de decepções que Clark coletou ao longo de uma vida infeliz, Reinsve, recém-saída de mais uma indicação ao Oscar por seu impecável trabalho em ‘Valor Sentimental’, rouba os holofotes como o contraponto perfeito, em que se recusa a ser arrastada para mais uma prisão e a aceitar aquela dimensão recheada de corredores intermináveis como sua nova “casa”, por assim dizer. Vibrando em uma sutil química que os permite brilhar tanto juntos quanto por conta própria, a dupla ainda é acompanhada de nomes como Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell.

Por mais que deixe muitas pontas soltas e alimente terreno para uma possível sequência, ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ mostra que o gênero do terror sci-fi ainda tem muito a nos contar, sagrando-se como mais um ótimo título desse amplo espectro a chegar aos cinemas em 2026. É claro que a inesperada e intrincada estrutura do projeto pode não ser do agrado de todos, mas o resultado é sólido e memorável o bastante para garantir que o filme seja comentado pelos espectadores.


