‘John Wick’ é uma das franquias mais famosas e bem-sucedidas do cinema contemporâneo e não apenas forneceu uma perspectiva ao mesmo tempo original e clássica a produções do gênero de ação, como revitalizou a carreira de Keanu Reeves como um dos grandes astros da geração. Quatro capítulos depois da icônica saga do personagem titular e uma série pré-sequência que focou no Hotel Continental, somos convidados a retornar para esse universo em constante expansão com o ambicioso ‘Bailarina’ – nos levando de volta ao misterioso grupo conhecido como Ruska Roma e trazendo ninguém menos que a indicada ao Oscar Ana de Armas como personagem principal.
A trama é centrada em Eve Macarro (De Armas), uma jovem que vê toda sua realidade sendo destroçada por mercenários impiedosos, perdendo o pai em um assassinato premeditado que a deixa órfã e que a coloca no campo de visão de Winston Scott (Ian McShane), proprietário d’O Continental em Nova York, levando-a para ficar aos cuidados da Diretora (Anjelica Huston). Sendo treinada arduamente como mercenária, assassina e bailarina, Eve nutre de um derradeiro desejo por vingança, esperando o momento certo para adentrar esse obscuro mundo e encontrar o perigoso Chancellor (Gabriel Byrne) para fazê-lo pagar por crimes inenarráveis. E é claro que, nesse caminho, ela é aconselhada pelo próprio John Wick (Reeves) e se vê em uma trama mortal que acabará em sangue e tragédia.

De Armas já mostrou sua impecável versatilidade artística em sua prolífica carreira, estrelando a subestimada série ‘Las Encinas’ antes de roubar os holofotes com produções como ‘Blade Runner 2049’, a comédia de mistério ‘Entre Facas e Segredos’ e o polêmico ‘Blondie’ (que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz). E, depois de ter participado de títulos bastante famosos, ela encarna Eve com maestria aplaudível e invejável, prestando homenagens à seriedade sorumbática de Reeves na franquia original e incrementando uma jovem atormentada por fantasmas de um passado não muito distante com camadas muito bem delineadas – e que a eternizam como uma das atrizes mais competentes de sua geração.
Navegando pelos corredores intermináveis d’O Continental, entrando na mira de caçadores de recompensas inescrupulosos e até mesmo batalhando contra John em uma épica batalha que serve para reafirmar seus laços, De Armas é um deleite para os olhos e singra com fluidez por todos os beats e todas as reviravoltas que acompanham sua personagem. E é claro que ela não estaria sozinha nessa empreitada: Byrne, encarnando o antagonista principal da trama, faz um trabalho admirável que o coloca nos bastidores de uma teia de mentiras e artimanhas que atrai Eve para a suposta “conclusão” de sua história; Huston e McShane vibram em uma química explosiva e aproveitam o recém-cunhado título de “personagens-legado” para arquitetar a ponte entre a saga ‘John Wick’ e esse spin-off; e o saudoso Lance Reddick nos agracia uma última vez como Charon, concierge do hotel, e fornece a dose perfeita de nostalgia e saudosismo pela qual o público clama.

Considerando que o longa-metragem faz parte de um universo muito maior, semelhanças obviamente existiriam – mas elas funcionam mais como uma carta de amor à franquia do que uma mera cópia. A utilização de cores neon e a construção de sequências que se equilibram entre a cruel realidade e um onirismo escapista retorna com força, colocando em xeque a missão pessoal de Eve e o ostensivo e despreocupado hedonismo que acompanha seus inimigos – até, é claro, ambos os mundos colidirem. A exímia fotografia de Romain Lacourbas é uma homenagem constante aos thrillers neo-noir que se popularizam na década passada e fornece uma austereza entre dramas pessoais e interpessoais dos personagens e o escopo epopeico dos incríveis cenários selecionados para as gravações.
Len Wiseman, famoso por obras como ‘Anjos da Noite’ e ‘Duro de Matar 4.0’, não é nenhum estranho ao gênero e sabe como comandar as belíssimas coreografias de ação, pegando páginas emprestadas do trabalho de Chad Stahelski para imortalizar cenas mais constritas e palpáveis, em detrimento de um exagero cansativo e repetitivo – o que, como sabemos, funciona muito bem com um pano de fundo como esse. E, completando esse incrível time de artistas, Shay Hatten baseia-se muito em uma reformulada “jornada do herói” que coloca Eve e John em um mesmo patamar – movidos por um ímpeto vingativo que não será saciado e que os lança a uma caminhada tortuosa, ímproba e sem volta (e que contam com diálogos teatrais na medida certa).

Apesar de momentâneas falhas, ofuscadas pela beleza e pelo comprometimento de todos os envolvidos, ‘Bailarina – Do Universo de John Wick’ é uma forte e impressionante entrada a uma das maiores sagas do cinema, imortalizando não só a incrível e envolvente presença de Ana de Armas, mas o legado deixado por essa arrebatadora história.
