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Crítica | Ballet Clássico de São Petersburgo entrega uma atrocidade performática com uma amadora apresentação de ‘O Quebra-Nozes’


O Quebra-Nozes é um dos ballets mais conhecidos de todos os tempos e partiu da genial mente de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, imortalizando-o como um dos maiores compositores de todos os tempos. Afinal, Tchaikovsky já havia eternizado diversas histórias memoráveis com seu trabalho em ‘O Lago dos Cisnes’ e ‘A Bela Adormecida’ antes de atingir um novo ápice artístico com incursões como “A Dança da Fada Açucarada”, “A Valsa da Flores” e “Grand Pas de Deux”, que foram levadas para os palcos ao redor do mundo por incontáveis artistas – incluindo o icônico e lendário Mikhail Baryshnikov.

Agora, o Ballet Clássico de São Petersburgo traz sua própria visão do aclamado espetáculo para a capital paulista, cujas únicas duas apresentações se deram no dia 17 e 18 de novembro no Teatro Liberdade. Contando com o respeitado Alexander Volchkov, do Ballet Bolshoi de Moscou, e com a incrível Maria Tomilova, do Ballet Grigorovitch, o resultado não é apenas aquém do esperado, como deposita todas as expectativas em cima de Tomilova para uma apresentação amadora e que mais soa como uma comédia de erros vergonhosa do que algo que uma das escolas mais conhecidas da capital russa deveria ter entregado ao público brasileiro.

Se você nunca ouviu falar da história de O Quebra-Nozes, sugiro abrir qualquer página de pesquisa da internet ou assistir ao curta-metragem animado da Walt Disney Studios para a antologia ‘Fantasia 2000’, pois o próprio ballet se esquece de criar qualquer diálogo para nos contar o que está acontecendo. A trama é centrada na jovem Clara que, na noite de Natal no palácio de sua família, é presenteada com um quebra-nozes e, através da imaginação nata das crianças, é levada por uma versão antropomórfica de seu brinquedo em uma aventura mágica que envolve não apenas um embate contra o perigoso Rei dos Ratos, mas uma viagem ao Reino dos Doces, onde conhece a Fada Açucarada e tantos outros personagens.



O problema é que, enquanto o primeiro ato consegue nos envolver em uma remodelação reduzida e compendiosa do épico arquitetado por Tchaikovsky, o segundo não faz qualquer sentido palpável e soa como algo fora da realidade até mesmo dentro do universo do lúdico. Entretanto, se você imaginou que esse era o obstáculo principal, acomode-se nos seus assentos: com exceção de Tomilova, que carrega o espetáculo nas costas em um papel duplo de Clara e da Fada Açucarada (e acompanhada de mais dois ou três bailarinos que fazem um sólido trabalho), cada engrenagem parece feita com pressa, sem vida ou ânimo que ofusque os infinitos deslizes amadores que se estendem por uma hora e meia de frustração e decepção.

Kirill Safin, estrela do Ballet Mariinsky, preza por uma montagem fiel, mas não encontra sucesso em momento algum: sua parca visão artística transforma a apresentação em um especial natalino de fim de ano em que os alunos mais promissores foram selecionados para uma armadilha inadvertida de erros crassos, tropeços imperdoáveis e uma falta de expressividade que mancha como uma erva daninha cada uma das performances. Volchkov, inclusive, se rende a uma letargia artística que o transforma em um ator sem vida, envolvido demais nos próprios pensamentos a ponto de quase derrubar Tomilova mais de uma vez e errando passos simples de serem executados; o assíncrono corpo de baile deixa a entender que os ensaios não valeram de muita coisa, transparecendo uma tristonha e quase risível insegurança que beira o ridículo – e que apenas ressalta um cenário caindo aos pedaços e arquitetado de última hora.

É claro que certas sequências trazem o mínimo de comprometimento, como a “Dança Chinesa” e o “Trepak”, mas nada que seja forte o bastante para nos desviar de construções horríveis como a “Marcha” e a “Dança Espanhola”. Os bailarinos, restritos ao pequeno espaço do Teatro Liberdade, se mostram tensos a todo o momento e nos deixam angustiados com esbarrões e a falta de liberdade para os jeté e os frappé – com destaque à inexplicável “Valsa das Flores”, que coloca dez casais digladiando pelo mínimo de território para concretizarem seus movimentos. E, como se não bastasse, o ato de encerramento, o “Grand Pas de Deux”, coroa uma das maiores atrocidades teatrais do ano com falhas técnicas que nos arrancam risadas de nervosismo.

Apesar das expectativas, O Quebra-Nozes é uma decepção inexplicável que condensa uma das histórias mais populares do planeta em noventa minutos de amadorismo e escolhas controversas – e que coloca toda a responsabilidade em cima de Maria Tomilova (que merece todas as glórias por ter tentado salvar o espetáculo de um desastre completo).

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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