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Crítica | Bambi: Uma aventura na floresta é um espetáculo lírico sobre a natureza e o amadurecimento


Quem não conhece Bambi, o clássico animado dos estúdios Disney de 1942, tantas vezes responsável pelos primeiros deslumbramentos e tristezas do cinema na infância? Assim como aquele filme, a nova versão dirigida por Michel Fessler também se inspira no romance juvenil do austríaco Felix Salten, escrito em 1923. Agora, porém, não se trata de animação, mas de imagens reais, captadas com a mesma sensibilidade que tornou célebre o documentarista de A Marcha dos Pinguins (Oscar de Melhor Documentário em 2006).

Em 85 minutos, Bambi: Uma aventura na floresta (Bambi, l’histoire d’une vie dans les bois) acompanha o ciclo da vida do pequeno cervo desde os primeiros batimentos cardíacos no útero da mãe até a conquista de sua maturidade como príncipe da floresta. O filme constrói uma atmosfera de deslumbrante beleza natural: folhas que se agitam, o farfalhar da floresta, os ruídos discretos da vida selvagem. O ciclo da natureza se desenrola diante dos olhos do espectador em imagens de rara delicadeza e precisão.



A narração em francês é confiada à cantora Mylène Farmer, que pontua o filme com breves intervenções, quase incisões poéticas, nunca dominantes. Quem reina absoluto na condução das emoções é a trilha sonora de Laurent Perez Del Mar, vibrante e hipnótica, que acompanha tanto as ameaças iminentes da vida do jovem cervo quanto os instantes de encantamento em sua convivência com os outros animais. A música é um personagem à parte, faz brilhar os olhos dos bichos, transmite a leveza dos saltos, evoca o medo diante dos caçadores e o lirismo dos encontros com os amigos da floresta. Além disso, é válido ressaltar o talento de montagem ao tornar imagens documentais em uma narrativa bem estruturada. 

A trajetória de Bambi é, como sempre, uma fábula de amadurecimento. O pequeno cervo aprende a dar seus primeiros passos sob os cuidados da mãe, descobre a amizade com o corvo, o coelho e outros habitantes da floresta, enfrenta perigos — de cobras venenosas ao frio rigoroso do inverno. Mas nada é mais ameaçador do que o estampido do tiro, que ecoa pelo vazio da mata e sela seu destino de perda e solidão. A ausência da mãe se torna uma ferida profunda, sobretudo moral, indeletável em sua vida.

Este espetáculo visual recorda também o notável Amazônia (2013), de Thierry Ragobert, uma coprodução franco-brasileira que acompanha o percurso de um macaco-prego em diferentes fases da maior floresta tropical do mundo, tanto no período de cheia quanto o de estiagem. Ambos os filmes compartilham a vocação contemplativa e poética, permitindo ao espectador não apenas observar, mas sentir o ritmo natural do ciclo da vida.

Do mesmo modo, outras animações recentes exploram essa cadência sensorial, como Flow (2024) e A Tartaruga Vermelha (2016), de Gints Zilbalodis e Michaël Dudok de Wit, respectivamente. Este último também tem a trilha sonora composta por Laurent Perez Del Mar. Esses filmes, no entanto, diferem por mergulharem inteiramente na experiência sonora da natureza, sem a presença de uma intrusa voz narradora. Michel Fessler, ao contrário, opta por um equilíbrio delicado entre a voz poética de Farmer e a grandiosa trilha, o que mantém o tom de fábula e encanto mesmo sem a utilização de CGI.

A metáfora do crescimento de Bambi é visualmente traduzida em sua galhada, que se amplia a cada fase como uma coroa de amadurecimento. Talvez por isso a história desse pequeno cervo seja tão impactante até hoje: nenhum outro animal carrega sobre a cabeça uma imagem tão simbólica da passagem do tempo e da conquista da maturidade.

Bambi: Uma aventura na floresta é, portanto, mais do que um documentário: é uma ode à natureza, um conto iniciático que se impõe pela força lírica da música e pela beleza das imagens. Um filme que deveria estar nas salas de aula, ou melhor, que as escolas levem os alunos às salas de cinema, onde a dimensão sensorial da obra pode ser plenamente apreciada. 

É impossível sair da sessão sem sentir que vivemos, junto ao pequeno cervo, um turbilhão de emoções — medo, alegria, perda, esperança — e sem levar conosco a lembrança de que a floresta, com sua vida vibrante e ameaçada, é também espelho do nosso próprio ciclo existencial. Este é o tipo de obra que deslumbra os olhos dos adultos e, sobretudo, energiza as crianças, convidando todos a olhar o mundo de forma mais colorida, mágica e natural.

 

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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