sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Crítica | Bem-vindos a Bordo – Adèle Exarchopoulos é alma, cabeça e corpo de uma trama amadora

Se Adèle Exarchopoulos não fosse a protagonista de Bem-vindos a Bordo (no original Rien à Foutre), a produção franco-belga de Julie Lecoustre e Emmanuel Marre penaria por sair do papel e, depois, ser distribuída. 

Após ser apresentado na Semana da Crítica no Festival de Cannes 2021, Bem-vindos a Bordo chega ao Brasil graças à Mostra de Cinema de São Paulo por conta da protagonista. Desde Azul é a Cor Mais Quente (2013), Adèle Exarchopoulos tem demonstrado uma entrega fluida e prazerosa em diversos papéis, desfilando entre drama e comédia, como Sibyl (2019) e Mandíbulas (2020).

Fora a performance da anti-heroína Cassandra (Exarchopoulos), pouca coisa do enredo – escrito a seis mãos – salva-se. A execução das filmagens, por exemplo, é sofrível. Feito com poucos recursos e técnica, a iluminação das cenas internas são constrangedoras por conta da falta de tratamento e sua disposição mal engendrada. 

Como o projeto possui dois diretores, é possível notar uma nuance de tons e uma aparência montada aos percalços. Para além dos dilemas técnicos, as intenções dos roteiristas são boas, no entanto, não são bem estruturadas. Vale lembrar que este é o primeiro longa-metragem de ambos cineastas. 

As questões das empresas de voo low cost (baixo custo) são pinceladas, tais como as medidas para lucrar com bagagens e lanchinhos a bordo. Ao mesmo tempo, Bem-vindos a Bordo mostra a precariedade salarial dos funcionários, os contratos temporários e a rotação gigante de colaboradores em busca de oportunidades melhores. 

A partir de Cassandra, os cineastas propõem também discussões sobre o mal-estar da juventude do século XXI. A protagonista realiza o seu trabalho de forma básica e evita subir de cargo para não ter mais responsabilidades. Sente-se solitária, e, por isso, passa as suas noites entre shots de tequila, boates e sexo casual. 

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Ainda jovem e sem muita perspectiva de futuro, Cassandra compartilha apenas o sonho de conhecer Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Quando o roteiro nos permite conhecer mais detalhes da aeromoça, Adèle Exarchopoulos entrega uma atuação comovente.

Por outro lado, a direção amadora nos distancia do luto e adequação da personagem. Em um mundo que lhe exige um sorriso plástico e uma aparência feliz, Cassandra usa o trabalho como uma máscara do seu sofrimento. As imagens finais do filme foram realizadas em plena pandemia e com uma baixíssima resolução a partir de um celular.

Fazer cinema não é fácil, mas o que nos motiva a acompanhar obras independentes e de baixo orçamento é a criatividade dos diretores para driblar a falta de recursos com propostas interessantes. Em outras palavras, Julie Lecoustre e Emmanuel Marre não conseguem essa façanha e o encerramento é frustrante. 

Em geral, Bem-Vindos a Bordo é uma tentativa de crítica à precariedade do trabalho em companhias de baixo custo, tendo como fundo o retrato de uma juventude paralisada em relação às ambições de trabalho. Entre essas duas premissas, o drama pessoal de Cassandra é uma pequena fresta que merecia ser melhor explorada.  

 

Bem-Vindos a Bordo foi lançado na 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Com distribuição da Synapse Distribution, o filme chega aos cinemas brasileiros em 1 de dezembro de 2022. 

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Nascida no Rio de Janeiro e apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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