Crítica | ‘Benteveo’ – O luto e a memória sobre peças que buscam se encaixar [Bonito CineSur 2026]

No penúltimo dia de exibições da mostra competitiva sul-americana do Bonito CineSur 2026, fomos convidados a conhecer uma história sobre laços familiares que encontra camadas nas memórias e no preenchimento do que ainda não foi compreendido em um momento de perda. Uma obra potente que, em apenas 13 minutos, nos leva a uma imersão ao caminho ainda doloroso de reconexões.

Diretamente da Argentina, esse curta-metragem, Benteveo, dirigido pela cineasta Bianca Bazán Zárate, através de seus dois personagens, irmãos de faixa etárias diferentes, dialoga por meio de silêncios sufocantes montando uma potente alegoria da dor que atravessa a experiência humana. A obra nos leva a refletir sobre o luto, sobre o vazio e os caminhos que surgem pela memória para se construir um legado de significados.

Após o pai morrer, Bruno e Valentino vivem um momento de estagnação sobre o futuro, ainda presos à dor e tentando entender as lições que ficaram dessa referência familiar que se foi. Em uma casa humilde, ao longo de alguns dias, resolvem montar um bem-te-vi com peças que ainda estão soltas, ação que começara tempos atrás ao lado do pai. Ao longo desse período, entre o dito e o não dito se intercalando, atravessam o processo da perda e o real significado do que é a ausência.

A narrativa é muito bem modelada e fluida. Parte de uma relação deteriorada até um símbolo da natureza – uma ave conhecida por sua coragem e ligada a proteção ao ninho -, transformando os paralelos que se montam em profundas reflexões existenciais. Repleto de significados em cada cena, o projeto posiciona o olhar do público em uma atmosfera melancólica que abraça a esperança de reestabelecer vínculos importantes para qualquer caminhada.

As peças que saem do lugar, mas tentam se encaixar, são uma sugestão que acontece o tempo todo, um elo que interliga os personagens, presos numa espiral de sofrimento. Esse, que foi um dos melhores curtas-metragens exibidos no Bonito CineSur 2026, nos faz pensar a todo instante sobre como cada ser humano tem seu próprio tempo para lidar com as partidas. Lindo filme.

 

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.