Assim como diversos outros artistas musicais que resolveram voltar à ativa entre 2020 e 2021, Birdy saiu de seu hiato de cinco anos para dar aos fãs um presente bastante aguardado: seu quarto compilado de originais.

O alter-ego de Jasmine Lucilla Elizabeth Jennifer van den Bogaerde, que vinha despontando no cenário independente desde 2011, já havia entregado algumas das canções mais subestimadas da década, como as incríveis “Wild Horses” e “Keeping Your Head Up”, ambas da obra predecessora, Beautiful Lies. Agora, tempos depois de ter investido em uma nova era, Birdy resolveu apostar suas fichas num cândido amadurecimento lírico, talvez como forma de se curar de um coração partido e seguir em frente. ‘Young Hearts’, como ficou intitulada a nova incursão, é uma belíssima e longa expedição em busca de uma independência romântica, cujas explorações se estendem por nada menos que dezesseis faixas que parecem se dividir em dois álbuns distintos. Aliando-se aos produtores Ian Fitchuk, Daniel Tashian e James Ford, a construção musical pode até não soar tão original e envolvente quanto as anteriores, mas certamente não deve passar batido das playlists.

O principal ponto positivo do CD é, sem sombra de dúvida, sua coesão. Ficando responsável por cada uma das tracks, em companhia aos colaboradores, é notável como Jasmine se preocupa com minúcia em amarrar as pontas entre as músicas e permitir que os ouvintes tenham uma experiência completa, migrando de investida em investida para descobrir os sutis elementos que escondeu em meio aos acordes do violão e à sinestesia clássica do piano – mesmo quando coloca em profusão a “Valsa em A Menor” de Chopin como interlúdio. É nesse escopo que reside a faceta mais verdadeira de uma performer que merecia mais reconhecimento: entre altos e baixos, ela se mantém verdadeira às mensagens que quer entregar e, por esse motivo, calca laços fortes com qualquer um que deseje apreciá-la em toda a sua complexidade sonora.



As duas faixas de abertura já dão o espetacular tom do álbum, ao menos em sua primeira metade. “The Witching Hour” é uma ótima forma de começar a jornada a que Birdy se propõe, mostrando uma versatilidade invejável através do dinamismo pungente do piano de cauda – preparando terreno para a envolvente country-folk “Voyager”, cujas reminiscências nos arremessam para os anos com 1990 com Natalie Imbruglia e para o despontar de Taylor Swift com seu début homônimo. A diferença está na teatralidade arrepiante dos vocais e na criação de um enredo poético que, ao contrário do que poderíamos imaginar, fala essencialmente sobre liberdade. Isso acontece também com a impecável “Surrender”, uma das melhores rendições do ano, que resolve descobrir o sentido da vida através do amor e através de uma reflexiva contemplação sobre o que já se foi.

No capítulo inicial, Birdy tem uma afeição monumental pela melancolia sensorial – algo que imprime com cautela aplaudível ao menos no capítulo inicial dessa aventura. A linha identitária que orquestra com maestria alastra-se para a potente “Nobody Knows Me Like You Do”, que parece pegar uma página das obras confessionais de Adele, e para a repaginação country e bluegrass com “Lighthouse”, outro dos ápices da produção – cuja presença dos violinos é fantástica e muito bem demarcada. Aliás, o que mais nos chama a atenção é a delicadeza com que o trio por trás da produção maneja cada uma das iterações, permitindo que Jasmine tenha toda a soberania criativa possível para, ainda que faça menções a seus contemporâneas, almeje a uma estética única ou ao menos diferente do que já existe no cenário mainstream.

A verdade é que a última canção mencionada poderia facilmente encerrar um dos melhores álbuns de 2021 – mas Birdy resolve ir além, como precisasse de mais um tempo para se livrar daquilo que guardara na garganta. Pouco depois do resgate de Chopin, temos início a uma espécie de segundo capítulo fragmentado e repetitivo que esbarra no esquecimento mais de uma vez. “Evergreen” soa familiar demais para trazer quaisquer inovações que não tenhamos ouvido antes, dentro até das próprias composições da artista; “Celestial Dancers” retoma o piano e pega influências do chamber folk e do soul que Jessie Ware imprimira no irretocável ‘What’s Your Pleasure?’ – exceto pelo respiro inventivo; “Little Blue” e “New Moon”, por sua vez, parecem reciclarem instrumentais já visto nas tracks anteriores, numa mimética performance que não diz muito mais que o óbvio.



Felizmente, os equívocos não conseguem ofuscar por completo a densidade dramática dos pontos altos, como é o caso de “Deepest Lonely”. O evocativo crescendo é o que, no final das contas, a transforma na inflexão mais mercadológica – mas isso não importa quando lidamos com uma interpretação poderosa. Há, também, um flerte com o experimentalismo em “The Otherside”, enquanto “River Song” bebe da mesma fonte folk que o recente ‘evermore’, de Swift – tudo amalgamado e amarrado em uma espiritualidade bastante consistente.

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Young Heartpode não ter o mesmo frescor que os outros álbuns de Birdy, mas sem dúvida é uma boa entrada à sua discografia. Com uma bagagem cultural que transparece em cada uma das músicas, o único grande defeito da obra é sua longa e cansativa duração.

Nota por faixa:

1. The Witching Hour – Intro – 5/5
2. Voyager – 5/5
3. Loneliness – 4/5
4. The Otherside – 4,5/5
5. Surrender – 5/5
6. Nobody Knows Me Like You Do – 4,5/5
7. River Song – 4/5
8. Second Hand News – 2,5/5
9. Deepest Lonely – 4,5/5
10. Lighthouse – 4,5/5
11. Chopin Waltz in A Minor (Interlúdio) – 5/5
12. Evergreen – 2,5/5
13. Little Blue – 2,5/5
14. Celestial Dancers – 3/5
15. New Moon – 2/5
16. Young Heart – 4/5

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