Crítica | ‘Black Rabbit’ usa o talento de Jude Law e Jason Bateman em ELETRIZANTE suspense criminal

Se os anos 1990 foram palco de um reavivamento do gênero de drama criminais na televisão, o advento e a popularização dos streamings abriram ainda mais espaço para que realizadores investissem esforços em histórias desse formato. Não é surpresa que a Netflix tenha despontado como emblema máximo de produções fictícias ou true crime que conquistaram a crítica e o público ao redor do mundo. Agora, a plataforma nos convida para um ambicioso projeto que reúne algumas das mentes criativas mais celebradas da atualidade para uma minissérie instigante e que chegou hoje, 18 de setembro, à sua grade de programação: Black Rabbit.

Contando com oito episódios, a trama traz Jude Law como Jake Friedken, dono de um bar conhecido como Black Rabbit que se tornou um dos mais populares da vibrante e irrefreável cidade de Nova York. Navegando pelas atribulações do mundo do empreendimento e percebendo que as coisas não estão indo como o planejado, sua vida vira de cabeça para baixo quando Vince (Jason Bateman), seu distante irmão que outrora era um dos proprietários do local e com quem entrou em uma profunda discussão após problemas pessoais, retorna sem aviso – trazendo consigo uma série de problemas que, como podemos imaginar, cairão no colo de Jake.

Depois de uma série de decisões erradas e de um vício incontrolável em apostas e jogos de azar, Vince decide deixar o orgulho de lado e pedir ajuda para o irmão, conseguindo um trabalho temporário como garçom e esperando o momento certo para contar o que, de fato, aconteceu. Porém, os filhos de um perigoso e poderoso agiota, Joe Mancuso (Troy Kutsur) estão em seu encalço, cobrando-o pelos US$140 mil que deve em empréstimos com ameaças constantes e um ultimato que pode custar a vida da filha, Gen (Odessa Young), com quem não tem um bom relacionamento. Eventualmente, Jake é arrastado para o inescapável vórtice criado pela irresponsabilidade de Vince e percebe que a situação é bem pior do que imaginava – e que outros obstáculos estão à vista.

Criada por Zach Baylin e Kate Susman, a narrativa abraça os tropos do gênero para garantir um aproveitamento máximo por parte do público ao se apoiar no talento de um elenco estelar e de um comprometimento estético de tirar o fôlego. Em outras palavras, apesar do delineamento do enredo ser bem familiar aos fãs de tantas produções similares, nada disso importa quando a forma como essa história é contada diverge do que conhecemos a partir de jogos de câmera inteligentes, uma fotografia claustrofóbica e labiríntica, e uma paleta de cores mergulhada na ameaça iminente das noites nova-iorquinas e na melancolia de dias que enclausurados numa apatia cíclica e da qual é impossível fugir.

O roteiro supervisionado pela dupla investe em um equilíbrio meticulosamente dosado entre o frenesi verborrágico de conflitos há muito tempo sem resolução e aos excruciantes momentos de silêncio que gritam em decepção e frustração – e que fomentam os complexos laços entre Jake e Vince. Singrando entre passado e presente, Baylin, Susman e o time de escritores mostra que, mesmo anos depois de terem se separado, as coisas não melhoraram entre os protagonistas e o barril de pólvora que se acendeu entre os dois pode explodir a qualquer momento.

Ora, de um lado temos as tentativas falhas de Jake não apenas em expandir o bar com uma franquia, mas em lidar com o irmão e com todos os problemas que trouxe para uma vida que, para o bem ou para o mal, residia numa complacência confortável e segura – e que escala quando a bartender Anna (Abbey Lee) abandona o emprego em uma noite crucial apenas para revelar à chef, Roxie (Amaka Okafor), que sofreu abuso sexual pela última peça do trio de donos do estabelecimento, Wes (Sope Dirisu). De outro, a personalidade implacável de Vance e sua capacidade inexplicável de perder dinheiro, que o levou a penhorar a parte que lhe pertencia da casa da falecida mãe e a entrar em contato com Mancuso, se torna mais volátil episódios a episódio.

As performances do elenco são formidáveis e podem até mesmo garantir indicações ao Emmy – mas é o trabalho de Bateman como diretor que nos chama a atenção. Afinal, ele já havia demonstrado seu apreço pela produção fílmica com o irretocável drama ‘Ozark’, promovendo um reencontro de seus colegas ao escalar Laura Linney e Ben Semanoff para comandarem alguns dos capítulos em uma simbiose extraordinária. Justin Kurzel, responsável pelas duas últimas iterações da minissérie, completa o estelar time de realizadores com uma visão bastante clara do que quer entregar ao público.

Por mais que escorregue aqui e ali, Black Rabbit é uma ótima e certeira adição ao expansivo catálogo da Netflix e apoia-se na química explosiva de Jude Law e Jason Bateman para nos guiar em uma jornada movida ao melhor do drama e do suspense – acertando nos lugares certos e nos deixando ansiosos para apertar o play e assistir ao próximo episódio.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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