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Crítica | Bob Cuspe – Não Gostamos de Gente – Animação retrata Angeli e seus clássicos personagens em crise


A trinca de ases dos quadrinhos nacionais responde pelos nomes Angeli, Laerte e Glauco. Esses três cartunistas, também conhecidos como ‘Los 3 Amigos’, são responsáveis pela grande ascensão dos quadrinhos no Brasil, e, hoje, são as grandes referências do gênero para as novas gerações de artistas. Nos últimos anos, a sétima arte tem buscado dar o devido prestígio aos cartunistas que ajudaram a construir o gênero em nosso país, produzindo filmes que retratem criadores e criaturas, de modo que o público já pôde conferir, por exemplo, ‘Laerte-se’ (2017), ‘A Cidade dos Piratas’ (2019) e, agora, pode assistir ao mais novo ‘Bob Cuspe – Não Gostamos de Gente’, sobre a obra de Angeli, que chega às salas de cinema brasileiras após breve estreia na Mostra de São Paulo 2021.

Durante uma entrevista, Angeli demonstra estar claramente em crise – criativa e de identidade. Isso porque seus personagens também estão insurgindo contra ele desde o momento em que Bob Cuspe decide sair do mundo da imaginação e vir para a realidade tirar satisfação com seu criador. Mas, no caminho, Bob encontrará não só outros clássicos personagens do cartunista – como Os Eskrotinhos, Rê Bordosa, Chiclete com Banana entre outros – mas também terá que combater e destruir diversos Elton Johns em miniatura, que, tais como praga, perseguirão os personagens ao longo de sua jornada.



Para quem acompanha a produção nacional de quadrinhos, Angeli é um nome referencial, não só em revistas mas também em tirinhas de jornal. A acidez, a forma direta e revoltada como muitos de seus personagens se comunicavam – com palavrões e certa violência – marcaram uma época lá entre os anos 1970 e 1990 em que tais características eram encontradas apenas em produções alternativas, não nas novelas e filmes comerciais brasileiros – ao menos, não abertamente. Personagens como o punk-rock Bob Cuspe e a jovem entediada e sem papas na língua Rê Bordosa ajudaram a refletir uma juventude insatisfeita com as normas sociais, conferindo-lhes voz numa época em que falar a verdade de maneira direta era vista como coisa de gente subversiva.

O filme de Cesar Cabral consegue captar bem a essência dos personagens de Angeli, aqui retratados através da técnica de animação em stop motion – aliás, uma ótima escolha para contar a história do longa, dando liberdade de execução ao roteiro de Leandro Maciel e do próprio Cesar Cabral. A qualidade do stop motion é excelente, conferindo vida e textura a esses icônicos personagens que por muito tempo ficaram restringidos ao 2D do papel. Também a dublagem se encaixa perfeitamente, com participação e música de Paulo Miklos e os Titãs e voz de Milhem Cortaz.

Bob Cuspe – Não Gostamos de Gente’ é um filme para uma geração mais grisalha, e é também uma merecida homenagem ao Angeli e seu incrível trabalho que, por décadas, fez ecoar a efervescência conflitante e insatisfeita de muitos brasileiros. Com muita qualidade, é uma animação que mostra a enorme competência que o Brasil tem em produzir filmes com essa técnica, e merece os prêmios que tem ganhado.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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