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Crítica | ‘Brenda Lee e o Palácio das Princesas’ celebra o emblemático Anjo da Guarda das Travestis em fabuloso espetáculo


Os fracos também são chamados opressores.

A história da comunidade LGBTQIA+ no Brasil é inegavelmente complexa e recheada de estigmas pejorativos que, mesmo com o passar das décadas, permanecem arraigados em uma cultura preconceituosa e retrógrada. E, em meio a celebrações de supostos “heróis” nacionais, os verdadeiros emblemas que defenderam causas sociais e contribuíram para diminuir o abismo entre os favorecidos e os marginalizados se perdem sob uma melancólica névoa. Esse é o caso de Brenda Lee: a ativista não apenas é considerada como o “anjo da guarda das travestis”, como fundou a primeira casa de acolhimento a pessoas HIV+, que sofriam discriminação com a epidemia do vírus nos anos 1980 e 1990.

Firmando um espaço necessário para que essas pessoas tivessem um “santuário” de proteção e saúde, Brenda garantiu que todos recebessem afeto e amor em uma grande família escolhida – afinal, como bem sabemos, inúmeros jovens da comunidade queer foram expulsos de casa pelos pais, sujeitando-se a viver nas ruas e subjugando-se a qualquer coisa para sobreviverem. Diferente de outras pensões espalhadas por São Paulo, o Palácio das Princesas, como idealizado pela ativista, era um refúgio que, merecidamente, tornou-se marco histórico da cidade e um símbolo de resistência que perdura até os dias de hoje.



A figura de Brenda Lee foi eternizada com o musical ‘Brenda Lee e o Palácio das Princesas’, que em 2025 retornou com uma nova montagem no Teatro Vivo, na Zona Sul da capital. E, em meio a constantes ressurgimentos das pautas LGBTQIA+, minadas dia após dia com a ascensão da extrema direita e de grupos conservadores, a peça mostra-se mais importante do que nunca: afinal, a história de Brenda é um reflexo que parece se manter imóvel frente a pessoas que não entendem a pluralidade de gêneros e de identidades e que transformam essa comunidade em um bode expiatório de problemas estruturais muito maiores. E, guiada por um elenco irretocável, a nova versão dessa memorável história é espetacular e tocante do começo ao fim.

Dirigido pelo prestigiado Zé Henrique de Paula, o enredo funciona não como uma biografia de Brenda Lee, mas uma celebração de sua pessoa e da importância para a comunidade queer. Iniciando-se com um divertido número inspirado em “Cell Block Tango”, de ‘Chicago’, somos apresentados às personagens principais que compõe essa obra-prima artística ao lado de Verónica Valentino como a protagonista titular: Olívia Lopes como Cinthia Minelli, uma respeitada performer que conhece Brenda há bastante tempo e que, entrando como uma inesperada mestre de cerimônias, nos guia por essa jornada fabulosa; Tyller Antunes como a tímida Ariella Del Mare, apaixonada pelo canto e que deseja fazer a cirurgia de redesignação de sexo para ser aceita pela família; Andrea Rosa Sá como Raíssa, dotada de habilidades de hair styling incríveis e que tem o sonho de abrir o próprio salão; Leona Jhovs como Blanche de Niège, uma ingênua e sonhadora jovem cujo maior objetivo é encontrar o amor verdadeiro e construir uma família; e Elix como a responsável e metódica Isabelle Labete, devota aos estudos e que deseja ingressar em uma faculdade.

Morando sob o teto construído a muito sangue e suor por Brenda, cada uma das personas que agracia os palcos materializa um problema social que, para as travestis e transexuais, é elevado à enésima potência. Afinal, como bem sabemos, essa parcela da comunidade LGBTQIA+ é a mais marginalizada e impregnada com estigmas idióticos e sem sentido. Não é à toa que Brenda, emergindo como uma figura materna que cuida das filhas com garras ferozes, comente através de belíssimos e jocosos solilóquios, sobre a falta de oportunidades para pessoas como elas, motivo pelo qual quer transformar a pensão em um palácio – um lugar cujas suntuosidade e majestade emanem de suas moradoras.

O prospecto técnico do espetáculo é reduzido e toma forma com apenas um cenário imóvel; entretanto, diferente do que podíamos imaginar, a mescla industrial e vaudeville que compõe a arquitetura do palco torna-se entidade viva para que acompanhemos o arco das protagonistas em meio a uma divertida multiplicidade artística que singra pelo tango, pelo samba, pelas baladas pop e pelo rock. Dessa maneira, somos engolfados em uma verborrágica e apaixonante declamação que quase se transforma em poesia através de atuações certeiras e recheadas de impecáveis sutilezas – com destaque ao glorioso retorno de Valentino como Brenda Lee.

Contando com referências constantes à cultura pop e um coração aberto para qualquer um que deseje conhecer ou re-conhecer uma das figuras mais emblemáticas da história do Brasil, ‘Brenda Lee e o Palácio das Princesas’ é uma das melhores peças do ano e merece nossa atenção total – emergindo como uma análise sociológica e musical de extrema importância para o que vemos hoje.

Brenda lee 1

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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