Crítica | Canina – Amy Adams Corre com os Lobos em TERROR Psicológico Cômico [Festival do Rio 2024]



Muitas gerações de mulheres cresceram condicionadas ao ambiente doméstico e a tudo que ele representa. Mulher não bebe, não fuma, não sai sozinha, não vai a festas, não senta de pernas abertas, não usa calças, não vota, etc. Essas construções foram acondicionando a mulher moderna cada vez mais dentro do ambiente do lar, onde sua única função era ser esposa – em vez de ser mulher – e, na maioria dos casos, ser mãe. Exercer essas duas funções que orbitam a vida do marido foi a única opção para muitas ao longo dos séculos – em muitos casos, ainda o é até os dias de hoje. Mas em 1992 uma psicanalista, Clarissa Pinkola Estés fez um estudo sobre esse tema, em que aponta os mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Partindo dessa filosofia, teve exibições no Festival do Rio 2024 o longa de terror psicológicoCanina’.

Mulher sorridente em supermercado.

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Uma mãe (Amy Adams, de ‘A Chegada’) está fazendo compras no mercado com seu bebê e, enquanto seleciona os alimentos, se deixa invadir por pensamentos intrusivos, que a levam a questionar seu papel como mãe e a estagnação em que se encontra em sua vida. Seu marido (Scoot McNairy, de ‘Monstros’) viaja com frequência, ficando dias fora trabalhando, e, quando está em casa, comporta-se como um visitante, sem saber onde estão as coisas nem como agir. Enquanto aos poucos vai perdendo o juízo, essa mulher começa a ter insônias e, ao longo da madrugada, passa a ouvir ao chamado dos cães do lado de fora. Paulatinamente, essa mulher vai abandonando os comportamentos sociais e civis e passa a conviver com os cães, comportando-se cada vez mais selvagemente, tanto de dia quanto de noite.

Baseado no livro de sucesso ‘Nightbitch’ (que é o título original do filme), de Rachel Yoder (que também participa do roteiro), a produção traz os personagens e a construção do romance da escritora, ok, mas não menciona em nenhum momento a fonte dos estudos de Estés, que é quem coloca em palavras o pensamento sobre a mulher selvagem e cujo livro em que consta esses estudos se chama, literalmente, ‘Mulheres que correm com os lobos’. Então, é no mínimo deselegante não mencionar a autora, cuja pesquisa consta em todos os questionamentos da protagonista.

Ressalvas a parte, Amy Adams mais uma vez demonstra que sua essência está bem longe da Giselle de ‘Encantada’, buscando trabalhos cada vez mais desafiadores. Em ‘Canina’ a atriz basicamente carrega todo o arco dramático do filme sozinha, seja com diálogos em off consigo mesma, seja interagindo com outros personagens que não fazem ideia dos conflitos dentro dela. As cenas em que a personagem vai se entendendo como cachorra, observando o crescer dos pelos e dos dentes e saboreando carne crua com gosto reiteram porque Amy é uma atriz de cinquenta anos que já foi indicada ao Oscar três vezes.

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Mulher olhando espelho com expressão surpresa.

Uma vez que o filme de Marielle Heller (de ‘Um Lindo Dia na Vizinhança’) é sobre o despertar da mulher selvagem, o contexto da maternidade é apenas um atrativo para o público, pois não é o foco do filme. O despertar na mulher selvagem nesse contexto é impulsionado pela solidão parental, em que embora ame seu filho, a mãe é anulada como mulher para ser tão somente mãe – e mais ainda, a mãe feliz.

Para tornar todo esse debate ainda mais atraente, a roupagem do terror ajuda a levar essa protagonista ao mais cru do comportamento animal, com boas cenas que são dosadas com inserções de humor repentinos, quase histéricos, diante do absurdo das situações em que a personagem se observa.

Mais do que um filme comercial de terror ou de comédia, ‘Canina’ é um filme filosófico, que tenta passar uma mensagem subliminar às suas espectadoras mulheres. Tomara que o público a entenda, mas ainda não temos previsão de estreia no Brasil.

nightbitch

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.