Falar da Pixar já foi a coisa mais fácil do mundo. Houve uma época em que o estúdio era sinônimo de sucesso e criatividade. Bastava ter o logo da empresa no pôster que o filme praticamente “se vendia sozinho”. Porém, com a pandemia e o fortalecimento do streaming, o estúdio começou a dar “patinadas” que não eram comuns. Apesar de ter alguns filmes incríveis no catálogo pós-pandêmico, como ‘Red: Crescer É Uma Fera’ (2022) e ‘Elementos’ (2023), o alcance das obras jamais foi o mesmo.
E por ter lançado alguns filmes de menor prestígio, como o infame ‘Lightyear’ (2022), a credibilidade irretocável de outrora não foi mais a mesma. No entanto, tudo isso é passado, visto que essa semana estreia ‘Cara De Um, Focinho de Outro’, a grande redenção da Pixar nos cinemas.

Anunciado “de surpresa” na D23 Brasil, em 2024, o longa se destacou por sua premissa bizarra e por ser uma das poucas produções verdadeiramente originais apresentadas no evento. Em tempos de continuações e remakes, o estúdio ousou ao trazer um respiro de originalidade – ao menos, era o que prometia. E agora que já assistimos o filme, dá para dizer: promessa cumprida com louvor.
A trama acompanha a jovem Mabel, uma jovem adulta que tinha problemas de temperamento na infância. Esses problemas foram solucionados por meio de uma clareira terapêutica no entorno da casa da avó. Aquele lugar especial virou sinônimo de paz e da própria avó, que viria a falecer alguns anos depois. Mabel tomou aquele lugar como um santuário e um respiro de memória da própria avó. Só que essa paz foi interrompida quando o prefeito da cidade decidiu mandar a clareira pelos ares para concluir a obra de um viaduto que iria acelerar o trânsito da cidade.
Indignada com a situação, Mabel foi novamente tomada pela raiva e começou a se movimentar para tentar vetar a obra. Só tinha um problema: absolutamente ninguém na cidade se importava mais com aquele pedacinho de natureza.

Em uma última tentativa, a menina foi ao departamento de ciências naturais de sua universidade e descobriu que a prefeitura só tinha autorização para fazer a obra porque os animais da região desapareceram. Porém, a presença de um castor no local poderia reestabelecer o fluxo do rio e atrair os animais novamente para a clareira. Mas como conseguir um castor de uma hora para outra? Foi assim que, em sua busca, a garota invadiu um programa da universidade que construiu animais robôs hiperrealistas para estudar os ecossistemas. Sem saber o que estava fazendo, Mabel transferiu sua consciência para o corpo de um castor mecânico e fugiu para a natureza, onde foi tentar convencer outro castor a reestabelecer a vida na clareira.
Surtado, né? E olha que o filme ainda esconde muitas surpresas. E é justamente isso que faz dessa aventura algo tão único. Ele consegue conciliar a fantasia com a diversão por meio de personagens carismáticos e daquele humor criativo que consagrou franquias como Toy Story e Monstros S/A nas telonas de todo o mundo. A forma como a cadeia alimentar é retratada é hilária. O sistema social estabelecido pelo rei dos castores é incrível, assim como a solução que eles arrumam junto a outros animais para tentarem impedir a destruição da clareira. Em meio a essas relações de poder e briga de bastidores, o longa constrói uma história sólida e engraçada, mas com algo a dizer.

Mabel, a protagonista, é atraente ao público por lutar por um ideal. Mesmo que ninguém mais se importe com sua causa, ela segue firme para mostrar aos outros que vale a pena brigar por aquilo. Em tempos tão sarcásticos e cínicos, os anti-heróis se popularizaram nos cinemas justamente por não ligarem para nada coletivo.
Mabel, por outro lado, é idealista e luta por uma causa que ajudará a todos, mesmo que eles não vejam isso por ora. Claro que ela tem suas motivações individualistas, mas a causa comum é tão forte que acaba se sobrepondo. Quantos heróis em animações vêm sendo retratados como esse viés recentemente? Pouquíssimos. Lutar pelo que é certo, mesmo quando as pessoas ao redor te tiram de maluco, é uma mensagem incrível para a molecada e também dialoga com os adultos, que muitas vezes aceitam injustiças no cotidiano de forma passiva porque “é assim que as coisas funcionam”.

Tudo isso em uma história de 1h45 de duração. Escrito e dirigido por Daniel Chong, criador do fenômeno animado do Cartoon Network, Ursos Sem Curso, Cara De Um, Focinho De Outro é um novo clássico da Pixar justamente por entender e resgatar o que a Pixar verdadeiramente é: um estúdio criativo. O filme tem diversão, tem um visual apaixonante preenchido por personagens essencialmente carismáticos, e conta com uma trama deliciosa de acompanhar. É um espetáculo.

Confira o novo e DIVERTIDO comercial de ‘Cara de Um, Focinho de Outro’, próxima animação da Pixar
