sábado, fevereiro 24, 2024

Crítica | Casa de Antiguidades – Aplaudido Longa Nacional é um misto de ‘Medida Provisória’ e ‘Bacurau’

Quando estreou pela primeira vez, em festivais, ainda no ano de 2020, no auge da pandemia, o drama com toque de ficção-científicaCasa de Antiguidades’ causou alvoroço, incômodo e certo fascínio, pois trazia um retrato de Brasil contemporâneo com um olhar nem um pouco romantizado. Único filme latino-americano a receber o selo da seleção oficial de Cannes 2020, após um hiato de dois anos entre suas primeiras exibições públicas e hoje, o longa finalmente chega às salas de cinema do Brasil a partir do próximo dia 21 de julho, para a alegria dos cinéfilos cults.

Cristovam (Antonio Pitanga) é um antigo funcionário de uma empresa de laticínios no sul do Brasil. Sendo praticamente a única pessoa negra na região, ele sofre constantes ataques em seu corpo, sua casa e seus bens. Certo dia ele é chamado na sala do diretor Shutzen (Soren Hellerup) para um anúncio preocupante: a empresa está realizando cortes de gastos e lhe comunica que, para não demiti-lo, irá fazer uma redução em seu salário, o que afetará sua aposentadoria. Indignado, porém resignado, Cristovam tenta seguir com sua vida cotidiana, no entanto, uma movimentação passa a ocorrer nas redondezas para iniciar uma campanha de independência da região sul do país + São Paulo com relação ao resto do território, desprezando os migrantes do norte e nordeste que já estejam na região. Assim, Cristovam terá que buscar formas duplas de sobrevivência… até o momento em que decide dar um basta.

O diretor João Paulo Miranda Maria começou sua carreira em Rio Claro, no interior paulista, e foi lá que despertou seu olhar para a população interiorana, deslocante no país, e sua recepção nas novas locações de trabalho. A partir dessa experiência observativa, seu roteiro com Felipe Sholl herege um protagonista em constante deslocamento – territorial e social – para retratar a faceta de um Brasil de dentro do armário, aquele que se diz do bem, temente a Deus, defensor dos preceitos da família e heteronormativo, mas que, de dentro do armário metafórico, comete as maiores atrocidades, reforçando ideias de uma supremacia racial e social baseados em preceitos ilógicos de uma fictícia superioridade regional. Parece ficção, mas já houve guerra no país em prol dessa independência.

Para construir esse impacto semiótico, o diretor contrasta duas técnicas chocantes: cenas fortes de violência animal e uma intensa interpretação de Antonio Pitanga, cujo olhar e a ausência de falas dizem mais do que qualquer diálogo. Ainda que com um excesso enjoado da câmera constantemente partindo de um plano aberto para se aproximar lentamente de um objeto, a metáfora de ‘Casa de Antiguidades’ apresenta um Brasil que não abre mão das práticas coloniais, mesmo após a abolição da escravatura.

Atemporal e distópico, ‘Casa de Antiguidades’ é um misto emocional de dois grandes sucessos brasileiros, ‘Bacurau’ e ‘Medida Provisória’, ainda que não tenha se inspirado nestas obras e com uma linguagem menos de ação, e sim mais reflexiva e autoral. É um filme que instiga o espectador a pensar a respeito sobre esses cenários de ficção que se aproximam muito da realidade. Às vésperas do período eleitoral, é um filme importante para pensar sobre o futuro que queremos para o país.

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