O cenário da comunicação no Brasil nunca teria alcançado o respeitado status que possui na visão mundial se não fosse pela mente de Assis Chateaubriand. O patrono do maior conglomerado midiático do país foi responsável pela forma de operação jornalística e de entretenimento como os vemos nos dias de hoje, estendendo seu contínuo legado por décadas a fio na forma até mesmo de contar histórias – verídicas ou não. E, em meio a incontáveis inovações, Chatô, como era carinhosamente apelidado, expandiu os múltiplos veículos de comunicação, sendo o nome por trás da chegada da televisão ao país.
Não é surpresa que, assim como diversas outras célebres mentes, ele tenha sido homenageado de várias formas – como é o caso do musical ‘Chatô e os Diários Associados’. A peça, que encerrou sua curta temporada no Teatro Liberdade, em São Paulo, neste último dia 17 de agosto, reconta a trajetória do magnata da imprensa através de uma mistura bem-humorada de ‘Cidadão Kane’ e ‘Meia-Noite em Paris’, pincelado com um panorama documentário que mais soa como uma aula de história do que como uma obra teatral. De fato, saímos do espetáculo com um conhecimento muito maior do que imaginávamos – mas em detrimento de uma triste falta de inspiração que desperdiça um elenco de ponta.
Aqui, o icônico Stepan Nercessian encarna Chatô, trazendo-o à vida de maneira exemplar e memorável e nos guiando através de uma performance marcante os altos e baixos de uma das carreiras mais prolíficas e controversas da história brasileira. A trama é centrada em uma viagem pelo tempo e pelo espaço a que Chatô convida o jovem jornalista Fabiano (Claudio Lins em uma fabulosa atuação) a conhecer ao vivo e em cores a trajetória do empresário, levando-o de 2024 para os anos 1930, quando tudo começou e quando Assis resolveu se eternizar. A partir daí, Fabiano navega por marcos na nossa cultura, como a popularização da radionovela, a ascensão de artistas nacionais e internacionais na rádio, a chegada do primeiro televisor, a inauguração da TV Tupi, a ascensão do movimento da Tropicália – e descobre um inesperado amor na figura de Juliana (Aline Serra), que atravessa gerações em uma fabulesca subtrama romântica.
É notável como o elemento de maior sucesso do musical é seu elenco: para além do trabalho impecável de Nercessian e de Lins, temos Sylvia Massari divertindo-se como nunca e nos vertendo em lágrimas com uma honesta interpretação de Dona Janete, braço-direito de Chatô; Serra emergindo como uma boa adição como o par romântico de Fabiano e uma apaixonada pela comunicação – unindo forças com Lins para um fio-guia à la Jack e Rose para transformar o espectro documental em uma história de ficção aprazível; e um corpo que ainda conta com Anna Priscilla, Caio Giovani, Carol Futuro, Cristiana Pompeo, Dino Fernandes, Fernanda Misailidis, Flávio Moraes, Giselle Prattes, José Mauro Brant, Marcelo Alvim, Tati Christine, Thiago Marinho, Thuca Soares e Valentina Schmidt, cada qual responsável por eternizar ícones da memória brasileira como Carmen Miranda, Hebe Camargo e Iolanda Braga.
O problema, entretanto, está no desperdício quase completo que se faz de um elenco de ponta em meio a uma adaptação monótona e unidimensional do livro que inspirou o espetáculo. O texto assinado por Fernando Morais e Eduardo Bark soa como uma cópia do livro ‘Chatô, Rei do Brasil’, de 1994, esquecendo-se de trazer uma linguagem mais contemporânea e que dialogue com esse novo canal de entretenimento – o palco. Em meio a diálogos extenuantes e hiperexplicativos, somos engolfados em uma interminável aula de história que sente a necessidade pretensiosa de se justificar cena a cena; a direção de Tadeu Aguiar, que nos encantou há pouco tempo com ‘Querido Evan Hansen’ e ‘Uma Babá Quase Perfeita’, parece cansado e não apresenta nada de novo ao gênero.
Em meio a erros e acertos, os aspectos técnicos também deixam a desejar: de um lado, temos uma coreografia grosseira e simplória demais para trazer qualquer dinamismo à narrativa; de outro, temos um comprometimento fantástico para os figurinos e as maquiagens, que nos transportam direto para as várias décadas que compõe o enredo. Eventualmente, não podemos deixar de pensar o quão irônico é uma peça que preza pela inspiração se esquecer de inspirar a si mesma.
‘Chatô e os Diários Associados’ pode ter o coração no lugar certo, mas nos frustra por uma sucessão de deslizes amadores que se englobam em uma bola de neve incontrolável. O que nos fica é a sensação de estarmos assistindo a duas obras diferentes – uma focada no melodrama cansativo de uma página qualquer de enciclopédia; e outro que se esconde no exagero cômico para tentar mascarar os erros, valendo a pena pelo aplaudível trabalho de seu elenco.
