Crítica | ‘Cinco Tipos de Medo’ – A barbárie implacável e as muitas formas de violência


Sempre que pensamos sobre a violência, já nos chega à cabeça palavras como medo, desespero e ansiedade, além de automaticamente lembrarmos de situações vividas em nosso país – que presenciamos ou que nos foram contadas. Pegando esse gancho como representação desse estado de desconforto, o longa-metragem Cinco Tipos de Medo investe suas fichas em um roteiro criativo, cheio de possibilidades – e também provocador – para revelar, de forma direta, a barbárie implacável, sem possibilidade de fuga.

Vencedor de quatro kikitos na edição 2025 do Festival de Gramado, o projeto escrito, dirigido e montado pelo cineasta cuiabano Bruno Bini, inspirado em histórias reais, utiliza múltiplas perspectivas, fragmentando a lineariedade com auxílio de pequenos flashbacks, que vão compondo um retrato complexo, com muitos personagens que seguem abraçados ao discurso proposto do início ao fim. Aos poucos, o público vai se vendo envolvido à medida que os pontos começam a se ligar.

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Cena do filme 'Cinco Tipos de Medo'
Cena do filme ‘Cinco Tipos de Medo’

Rodado em três municípios do estado de Mato Grosso – incluindo a capital, Cuiabá – Cinco Tipos de Medo apresenta personagens com histórias amarguradas que se encontram ao acaso. Assim, conhecemos uma capitã da polícia militar (Bárbara Colen) tomada pelo desejo de vingança após a perda do filho; um advogado (Rui Ricardo Dias) em luto pela perda da esposa – vítima de bala perdida –, e na esperança da recuperação do seu filho recém-nascido; um violinista (João Vitor Silva) que, após perder a mãe para a Covid, se apaixona pela enfermeira que cuidou deles (Bella Campos) – a mesma mulher que vive um relacionamento abusivo com o chefe de uma facção criminosa (Xamã). Um tiroteio, e suas consequências, conectam todas essas histórias.

Cena do filme 'Cinco Tipos de Medo'
Cena do filme ‘Cinco Tipos de Medo’

É bastante corajoso reunir tantas histórias e camadas com o objetivo de criar uma experiência impactante em menos de duas horas de projeção. Para isso é necessária coesão – a ligação dessas partes como um todo. Sem excessos, a trama se desenvolve de forma fluida, com alguns personagens mais desenvolvidos do que outros. O ponto frágil da narrativa está nas ações convenientes, aquele ponto da interseção que precisa existir e podem soar forçados, mas nada que atrapalhe o impacto da experiência.

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Cena do filme 'Cinco Tipos de Medo'
Cena do filme ‘Cinco Tipos de Medo’

Trazer um tema que se multiplica em assuntos que conversam com muitas realidades é a chave do sucesso do filme, principalmente ao abordar a violência – individual e estrutural -através de personagens moralmente ambíguos, que caminham nos conflitos ligados ao amor, à solidão, às relações abusivas, e a impotência diante do medo, formas de violência que afastam e corroem.

Cena do filme 'Cinco Tipos de Medo'
Cena do filme ‘Cinco Tipos de Medo’

Cinco Tipos de Medo não busca inovar quando pensamos em linguagem cinematográfica, sua força está nas mensagens. Insiste em causar um impacto sem sugerir, mete o dedo em feridas da sociedade com um discurso que não precisa ser traduzido, apenas sentido. Estreia no cinemas brasileiros no dia 02 de abril.

 

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.