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Crítica | Coletivo da Ponte entrega um grande espetáculo com a visceral adaptação de ‘Barrela’, de Plínio Marcos





Em 1958, seis anos antes do duro golpe militar no Brasil, o aclamado dramaturgo Plínio Marcos lançava a peça ‘Barrela’ – uma das produções mais cruas e potentes da literatura brasileira. A narrativa, baseada em um caso verídico que aconteceu em uma penitenciária na cidade de Santos, foi censurada pelo despido retrato feito acerca do sistema carcerário nacional, cujas denúncias de maus-tratos, barbaridade e negligência atravessariam gerações e se concretizariam com um assunto atemporal. Em 2023, o Coletivo da Ponte trouxe a peça de Marcos de volta à vida no Estúdio de Treinamento Artístico, em São Paulo, arquitetando uma gloriosa adaptação que se consagrou como uma das grandes produções do ano.

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Comandada por Gustavo Nolla em sua estreia como diretor, essa nova versão de ‘Barrela’ é mais enxuta, mas com o mesmo peso dramático: o enredo se inicia em uma cela de prisão, no auge da madrugada, e nos apresenta a cinco personagens principais. Fumaça (Mariana Nolla), Tirica (Dayane Cristine), Bereco (Gabriela Bonavita), Louco (Roni Junior) e Portuga (Rafa Oliveira) estão confinados em um barril de pólvora prestes a explodir e que é cimentado pela desconfiança, pela necessidade de sobrevivência e por uma degradação humana que permanece na densa atmosfera da peça do começo ao fim. Conforme segredos são revelados e o lado mais carnal e animalesco de cada indivíduo vem à tona, as coisas começam a se transmutar em uma derradeira compreensão de que voltar ao passado não é uma escolha – e sim parte de uma pena perpétua que os consome minuto a minuto.

Foto: André Dionizio

É notável como os personagens são talhados sob uma estrutura movediça e frágil, tentando recuperar arquétipos para ao menos se sentirem como pessoas, e não como escória. Fumaça emerge como o escape cômico, enquanto Bereco é o líder, o “macho-alfa” de quem todos têm medo; o Louco, talvez, seja o mais equilibrado deles, mesmo infundido em uma insanidade inescapável (afinal, ele se encarcerou em mundo próprio, onde pode fazer o que bem entender e, ao menos, ter um pouco de esperança – por mais deturpada que seja); Tirica esconde um segredo que coloca em xeque seu status dentro da penitenciária, ameaçado pelo odioso Portuga (que também tem muito a provar). Essa configuração é a base de um enredo cujo final já conhecemos e que nos convida a enxergar a realidade com outros olhos – críticos, desprovidos da tão sonhada alienação que nos priva do sofrimento.

A peça é conduzida com exímia pelo diretor, que também interpreta José Claudio, um jovem garoto que é preso por violência e porte de arma e que se torna alvo dos outros detentos – além de ser foco da cena mais cruel do espetáculo. A estrutura minimalista permite que o aplaudível elenco roube os holofotes, ainda que a sonoplastia pose como um empecilho distrativo, por vezes (como transições de luzes que não fazem muito sentido e falhas aqui e ali de efeitos sonoros); de qualquer forma, os deslizes não são fortes o suficiente para nos desviar da beleza da adaptação, que preza por um naturalismo bem-vindo e um complexo equilíbrio entre drama, tragédia e comédia que não é visto com tanta frequência como imaginamos.

Foto: André Dionizio

O ponto de engate é, como já mencionado, os atores e atrizes – e, como alguém que assistiu à primeira versão de ‘Barrela’, é notável como o trabalho corporal e performático ultrapassa as expectativas em uma sólida engrenagem que revela um incrível amadurecimento. Enquanto todos têm seu momento de brilhar, alguns chamam mais a atenção pelo comprometimento ao papel, pela entrega das falas e por se sentirem confortáveis com a tarefa que lhes foi atribuída. Há alguns problemas de cadência vocal e uma repetição incessante de palavrões que deixa o processo um tanto quanto cansativo, mas nada que uma dose reforçada de quebras de expectativa e de chocantes momentos que nos faça retornar aos trilhos.

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‘Barrela’ pode ter tido apenas uma apresentação, mas conseguiu, em pouco mais de uma hora, transforma-se numa das melhores investidas do ano. E, proposital ou não, a única luz branca no final de uma drástica sequência de eventos levanta uma pontinha de esperança de que, em algum momento, as coisas possam melhorar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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