Crítica | Com performance arrebatadora de Emily Blunt, ‘Dia D’ é um IRRETOCÁVEL e inspirador drama sci-fi

Cuidado: o texto a seguir conta com alguns spoilers da trama.

Steven Spielberg não é considerado um dos maiores e mais respeitados diretores de todos os tempos por qualquer motivo. Ao longo de uma expressiva carreira, Spielberg encabeçou produções que mudaram o rumo da sétima arte – tendo criado o primeiro blockbuster do cinema com ‘Tubarão’, lá em 1975, além dos clássicos ‘Indiana Jones’, ‘Jurassic Park’ e ‘E.T.: O Extraterrestre’. Como se não bastasse, o realizador deixou sua marca em potentes dramas como ‘A Lista de Schindler’, ‘Império do Sol’ e ‘The Post – Guerra Secreta’, além de ter tomado as rédeas do aclamado remake de ‘Amor, Sublime Amor’, estrelado por Rachel Zegler, Ariana DeBose e outros.

Spielberg está de volta este ano não apenas como produtor executivo da elogiada série inspirada em ‘Cabo do Medo’, que já chegou ao catálogo do Apple TV, mas com seu primeiro longa-metragem em quatro anos com o ambicioso Dia D. O drama de suspense sci-fi, que conta com sessões antecipadas em território nacional a partir de amanhã, 10 de junho, dá continuidade ao apreço significativo do diretor e produtor por histórias sobre extraterrestres – afinal, ele é o nome por trás do já mencionado ‘E.T.’ e por títulos como ‘Contatos Imediatos de 3º Grau’ e ‘Guerra dos Mundos’ – em um glorioso e impactante retorno ao gênero que reitera seu inescapável status no cenário do entretenimento.

Ao longo de quase duas horas e meia, Spielberg presenteia o público com a essência da sétima arte ao trazer motes bastante conhecidos da ficção científica remodelados sob uma perspectiva inesperada e inspiradora – cujo teor aventuresco é máscara para uma análise da empatia humana que parece ter sido perdida há muito tempo. A história se inicia com Daniel Kellner (Josh O’Connor), um especialista em segurança cibernética que roubou arquivos confidenciais do governo dos Estados Unidos para torná-los públicos e mudar a história do planeta de uma vez por todas – e que é caçado pelo vilanesco Noah Scanlon (Colin Firth), chefe da companhia Wardex, responsável por manter as conspirações alienígenas às escondidas do conhecimento público e que teme pelo que acontecerá caso as informações sejam divulgadas.

As coisas ficam ainda mais complicadas com a jornalista Margaret Fairchild (Emily Blunt), que trabalha como meteorologista numa emissora local em Kansas City, começa a ter experiências estranhas – desenvolvendo uma habilidade poliglota inexplicável e conseguindo entrar na mente de qualquer pessoa só de olhar em seus olhos. A verdade é que tanto Margaret quanto Daniel são receptáculos de extraterrestres que visitaram o nosso planeta nas últimas oito décadas e que foram subjugados a experimentos cruéis e mortais por oficiais do governo, percebendo que o destino de ambos era se reunir para garantir que a mensagem dessas criaturas fosse espalhada pelo planeta.

Cada aspecto do longa-metragem funciona como deveria, mas não dentro de um espectro convencional, e sim expandindo os temas que aborda das maneiras mais inesperadas possíveis. O roteiro de David Koepp, colaborador de longa-data de Spielberg, leva o tempo necessário para construir a enervante atmosfera e se recusa a entregar os pontos da trama “mastigados” aos espectadores; pelo contrário, Koepp acerta em cheio ao mostrar que os personagens já sabem o que está acontecendo e que cabe a nós se envolver com esse mistério conspiratório e ligar os pontos à medida que caminhamos a uma catártica conclusão (que, como podemos imaginar, também reside numa obscuridade fascinante).

Koepp discorre sobre o que existe fora do nosso planeta e de que maneira a presença de criaturas extraterrestres entra em conflito com a visão messiânica das religiões abraâmicas – colocando fé e ciência em rota de colisão sem se valer de controvérsias baratas e sensacionalistas. A ideia é fomentar uma atmosfera sinestésica de suspense, angústia e melancolia – algo que é refletido também pela tétrica e antêmica trilha sonora do lendário John Williams em uma das melhores incursões de sua carreira e pela fotografia superexpositiva e propositalmente cintilante de Janusz Kamiński, que nos envolve em um enigma cênico do começo ao fim.

Spielberg sempre soube trabalhar com atores e é claro que aqui não seria diferente. Reunindo elementos já explorados em produções anteriores, todo o escopo do longa-metragem é pautado em uma derradeira compreensão de que, talvez, nós sejamos os verdadeiros antagonistas de uma história autodestrutiva que insiste em se repetir – e é aí que o elenco tem a chance de brilhar mais ainda. O’Connor faz um sólido trabalho como Daniel, dividindo boa parte das cenas com Eve Hewson (Jane), Colman Domingo (Hugo) e Firth. Porém, é Blunt quem rouba os holofotes em um papel definitivo de sua gloriosa carreira, recém-saída da ótima sequência ‘O Diabo Veste Prada 2’ para uma camaleônica transmutação performática, mergulhando em uma crua e visceral performance que com certeza deve lhe garantir uma indicação ao Oscar.

O sucesso de Dia D é respaldado no esmero cuidado que cada membro da equipe e do elenco tem em garantir que a história seja aproveitada ao máximo – e, contando com as hábeis mãos de Spielberg, esse espetacular e avassalador drama sci-fi sagra-se como um melhores do gênero desde os impecáveis ‘A Chegada’‘Duna’, de Denis Villeneuve.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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