Cuidado: muitos spoilers à frente.
O universo de ‘IT: A Coisa’ é, sem sombra de dúvidas, um dos mais expressivos da cultura pop – e sua popularidade data desde o sucesso imensurável que o épico romance homônimo de Stephen King fez à época de seu lançamento. Ajudando a cimentar o legado do Mestre do Terror, o livro ganhou uma fama sem precedentes que culminou em uma adaptação estrelada por Tim Curry e uma elogiada duologia estrelada por Bill Skarsgard, explorando a materialização do medo e do terror de maneira incisiva, categórica e arrepiante.
O sucesso dos filmes dirigidos por Andy Muschietti logo abriu espaço para uma série pré-sequência em andamento intitulada ‘IT: Bem-Vindos a Derry’, que nos leva de volta para o início dos anos 1960, explorando as origens da infame criatura que assombra os residentes da pequena cidade – e que esquadrinha teorias da conspiração próprias de uma época marcada pela instabilidade política. Unindo sátira, drama, suspense e terror em um mesmo lugar, o spin-off mostra que esse cosmos ainda tem muitas vertentes a serem exploradas. E a chegada do quarto capítulo, “The Great Swirling Apparatus of Our Planet’s Function”, é apenas mais um indicativo de uma das produções mais bem estruturadas do ano – e a melhor incursão da série até o momento.
Após uma missão quase suicida para obterem qualquer registro fotográfico da criatura que vem atormentando-os, Lilly (Clara Stack), Ronnie (Amanda Christine), Will (Blake Cameron James) e Rich (Arian S. Cartaya) levam as imagens reveladas ao corrupto chefe de polícia Clint Bowers (Peter Outerbridge), apenas para serem taxados de loucos e ameaçados de atrapalhar o trabalho das autoridades de Derry – que escolheram o pai de Ronnie como bode expiatório do desaparecimento de três crianças, encarcerando-o e com planos de mandá-lo para a prisão de Shawshank. Desacreditados, o grupo de jovens começa a discutir sobre o que a criatura deseja: aterrorizá-los a um nível de desespero inescapável antes de matá-los (ou seja, no mesmo modus operandi que vimos Pennywise atuar nos filmes).
Will torna-se alvo primário da entidade nesse capítulo: ao ir pescar com o pai, Leroy (Jovan Adepo), o jovem é atacado e ferido, compelindo o oficial a buscar respostas com seus superiores e com o misterioso Dick Halloran (Chris Chalk), um telepata e vidente que é selecionado pelas forças armadas para encontrar uma poderosa arma capaz de dar vantagem inenarrável aos Estados Unidos na Guerra Fria – visto que essa arma é capaz de atacar os medos mais profundos de seus inimigos e levá-los à loucura. Leroy, inclusive, presencia Dick usando suas inexplicáveis habilidades no jovem Taniel (Joshua Odjick), invadindo suas memórias para descobrir a localização exata da criatura – a infame casa Neibolt, onde o Clube dos Perdedores enfrenta Pennywise nos longas.
O capítulo não é apenas recheado com inúmeras reviravoltas, mas alimenta a mitologia por trás de Pennywise, cuja amedrontadora presença em forma de palhaço se torna mais iminente a cada segundo – e finalmente nos mostra as origens cósmicas de um dos maiores antagonistas da cultura pop de forma envolvente e de maneira a atar com o que já foi explorado tanto no romance quanto nas adaptações para os cinemas. E, nesse tocante, o destaque da semana vai ao trabalho irretocável da roteirista Helen Shang, que sabe exatamente como dosar as múltiplas incursões narrativas a fim de convergirem-nas para um ponto em comum que, ainda que abra espaço para mais perguntas, aposta fichas num crescente mistério para garantir a atenção dos espectadores.
Shang não só apara alguns excessos cansativos do capítulo anterior, como se alia à ótima direção de Andrew Bernstein para transformar a história em um banho de sangue que ataca até mesmo Marge (Matilda Lawler), que, temendo perder seu lugar ao lado das garotas populares do colégio, trai a confiança da amiga Lilly e se vê alvo da criatura da maneira mais agonizante possível. E, nos conduzindo pelas labirínticas ruas de Derry, Bernstein e Shang trabalham lado a lado para garantir uma experiência de horror fabulosa que nos prepara para os embates e os perigos das semanas seguintes.
‘IT: Bem-Vindos a Derry’ retorna com seu melhor episódio até então, não poupando esforços para eternizar a mitologia criada por Stephen King e explorar como pode o talento de um time de atores que, sem sombra de dúvida, se entrega de corpo e alma para nos cativar. O quarto capítulo do spin-off dá as bases para uma mortal batalha que acontecerá em Derry muito em breve – nos deixando prontos para ver o que vai acontecer.
Lembrando que o próximo episódio vai ao ar em 23 de novembro, na HBO e na HBO Max.

