terça-feira, fevereiro 27, 2024

Crítica com Spoilers | ‘Assassinos da Lua das Flores’ é o filme mais NECESSÁRIO do ano

Toda vez que Martin Scorsese põe as mãos em um projeto, o mundo do cinema para e volta seus olhos ao realizador. Sua carreira fala tudo que precisamos para entender o motivo de muitos o considerarem como o grande diretor de sua geração. E Assassinos da Lua das Flores é um passo glorioso em sua já irretocável filmografia. Após diversos filmes de máfia e de pilantras, o diretor transforma esse longa em um relato histórico mais do que necessário para conscientizar, refletir e causar muita revolta no espectador.

Divulgação

A trama é inspirada em um livro que adapta eventos da história real dos EUA. No filme, somos apresentados ao povo Osage, que se destacou no início do século XX por terem acesso a poços de petróleo em seus territórios. Com isso, eles ficaram ricos e passaram a conviver na formação das cidades junto aos brancos. Mas, como nem tudo que reluz é ouro, as posses trouxeram não apenas riqueza, como também uma série inenarrável de bandidos engravatados dispostos a tudo para colocarem as mãos nessas terras. E aí acontece um massacre histórico.

Quando aceitou adaptar este projeto em parceria com a Paramount e a Apple, Scorsese disse que o que o motivou a entrar nessa história foi a revolta e a vontade de fazer o mínimo de justiça a esse povo injustiçado. Então, a protagonista é Mollie, uma jovem Osage diabética, cuja família foi toda seduzida pelos brancos. E o mesmo acaba acontecendo com ela, que se apaixona por Ernest, sobrinho de um magnata que quer aumentar sua já pomposa fortuna.

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Há muitas faces nos personagens dirigidos por Scorsese, mas nenhum deles consegue superar o casal principal. Mollie, interpretada por Lily Gladstone, é uma fortaleza em forma de ser humano. Você passa o filme inteiro se solidarizando com ela e se questionando como é possível um ser humano sofrer TANTO quanto ela e seguir de pé. É um trauma atrás de outro, causando um verdadeiro sentimento de ódio pela situação. E do outro lado está o Ernest de Leonardo DiCaprio. Sempre brilhante em cena, DiCaprio trabalha com o personagem mais complexo de sua carreira. Ele consegue ser vilão e vítima ao mesmo tempo, causando sensações mistas por grande parte do tempo. No entanto, vendo pelo panorama geral, é-se embrulhar o estômago saber como termina sua história. A relação entre marido e mulher é o fio condutor desta trama de ganância e desumanidade. Acompanhar como eles se conhecem e como tudo se desenrola é de encher os olhos de lágrimas.

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Além deles, o grande vilão da história é Bill Hale, vivido impecavelmente por Robert De Niro, naquele que provavelmente é o melhor trabalho de sua carreira. Ele é desprezível, inescrupuloso, mau-caráter, vil, cínico, nojento e todos os adjetivos negativos possíveis e impossíveis que você possa pensar. Ele trabalha tão bem nessa proposta de ser intragável, que fica até difícil de separar a imagem dele do personagem, causando um certo desprezo só de olhar pro rosto do pobre do De Niro.

Vale ressaltar que a opção de terem inserido diálogos misturando o Osage com o Inglês foi fundamental para trazer não apenas veracidade para o longa, mas para valorizar a cultura retratada em tela. “Queríamos ser o mais autênticos possível, e usar a dualidade dos ingleses e dos Osage era um símbolo do enredamento das duas culturas”, comentou DiCaprio. Para garantir que a língua e os diálogos seriam perfeitamente adaptados, a produção chamou o professor Christopher Cote para traduzir e revisar o texto, garantindo um maneja respeitoso a essa cultura.

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E a direção de Scorsese é de outro mundo. Ele inicia o filme com a descoberta do petróleo pelos Osage. Eles já se preparavam para abrir mão de seus costumes para seguirem vivos até que encontram o petróleo. Scorsese representa esse momento com uma representativa câmera lenta, mostrando os sorrisos nos rostos de quem acreditava ter encontrado a salvação. Eles pulam e brincam, sorrindo como quem acabou de tirar o peso do mundo das costas. Então, conforme o filme vai avançando e vemos a infiltração branca tomar forma, assassinando os indígenas um por um, toda aquela felicidade inicial dá espaço a uma melancolia misturada com revolta. E para representar essa invasão branca, o diretor traz câmeras em primeira pessoa passeando pelos lares Osage, dando a sensação de você estar invadindo junto. O que é muito representativo, porque vivemos nas terras indígenas tomadas a força ou a base de golpes até hoje.

Lily e Scorsese nos bastidores. Divulgação

Ao fim do filme, a longa duração, que provavelmente vai assustar alguns, justifica cada segundo de tela e deixa a sensação de que poderia ter tranquilamente uns 40 minutos a mais para desenvolver ainda melhor o desfecho, que, por opção do diretor, presta uma emocionante homenagem às radionovelas. Fato é que o filme é extremamente necessário, revoltante e fantástico. Scorsese atinge um nível raríssimo no meio do cinema ao criar mais uma inalcançável obra-prima. É um trabalho impecável que te causa sensações e mexe com sentimentos. Eu, particularmente, deixei a sessão com espasmos físicos de ódio. O olho pulsava de raiva, derramando lágrimas que desafogavam o gosto amargo deixado pela fiel representação de até onde os seres humanos são capazes de ir por dinheiro, e como essa praga rege a sociedade. É uma obra-prima irretocável, o cinema em sua mais pura definição.

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Assassinos da Lua das Flores estreia em 19 de outubro nos cinemas. O filme irá para o Apple TV+ em breve, mas não deixe de assistir nas telonas.

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Pedro Sobreirohttp://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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