É muito fácil perceber quando um filme tem a tão famosa “cara de Oscar”. Normalmente, produções feitas para varrerem ou ao menos marcarem presença na temporada de premiações mergulham em histórias reais e marcantes, movidas por dramas existencialistas ou pungentes que colocam determinado indivíduo frente a forças incontroláveis. É claro que títulos que partem desse princípio, por vezes, rendem-se a convencionalismos tão cansativos e a um desejo tão forte de dar um passo maior que a perna que se transformam em filmes Oscar-bait. Felizmente, esse não é o caso da cinebiografia ‘Coração de Lutador – The Smashing Machine’.
O longa-metragem traz conhecidos rostos às telonas e coloca Dwayne Johnson no papel do lutador amador Mark Kerr. Dotado de um apreço inexplicável pela luta livre e pelas competições esportivas, Kerr passa de um nome desconhecido para um popular astro do MMA, navegando por uma onda de vitórias impressionante que, como podemos imaginar, prenuncia sua ruína nos mais variados âmbitos. Singrando pelas complexas engrenagens que regem esse universo, à época carregado de estigmas e de obscuridade, o drama esportivo estende-se por mais de duas horas para honrar a vida de Kerr, cujo apelido profissional é emprestado ao título, e se expande para um interessante estudo de personagens que escorrega aqui e ali.

Comprimindo alguns anos da carreira do lutador, o enredo se inicia com sua inexplicável e meteórica ascensão ao estrelato, chamando a atenção de profissionais, comentaristas e esportistas ao redor do planeta. Acompanhado da namorada, Dawn Staples (Emily Blunt) e do melhor amigo, Mark Coleman (Ryan Bader), Kerr ultrapassa os limites de seu corpo para se eternizar como o melhor dos melhores, recusando-se a perder e garantindo que as constantes dores sejam apaziguadas pelo uso indiscriminado de opioides e outros narcóticos. Adentrando na Copa do Mundo de MMA, ele tem certeza da vitória até ingressar em uma competição para a qual não estava preparado, perdendo em meio a falhas técnicas e a mudanças de última hora nas regras do jogo e mergulhando em um vórtice perigoso e autodestrutivo de frustração.
O projeto parte de uma premissa bastante conhecida e que acompanha as grandes figuras que ganharam espaço na sétima arte – e, na verdade, mais serve como palanque para Johnson provar sua ótima versatilidade performática de que para exaltar o impacto de Kerr. E digo isso sem quaisquer comentários pejorativos: a história do astro de MMA é inspiradora, ainda que tenha permanecido na superficialidade narrativa nesse projeto; mas “The Rock”, carinhosa alcunha dada a Johnson, sempre nos conquistou por um carisma inegável que o cimentou como um “astro de um papel só” em suas múltiplas incursões no cinema, como ‘Jumanji’, ‘Velozes e Furiosos’ e ‘Alerta Vermelho’, apenas para citar alguns. Aqui, o astro nos mostra que estava guardando o melhor para o momento certo, mergulhando de cabeça em uma visceral performance que pode lhe render um lugar de destaque nas iminentes premiações.

The Rock, entretanto, não está sozinho nessa empreitada – e é acompanhado do poder incomparável de Blunt no papel de Dawn. A atriz não é considerada uma das melhores de sua geração por qualquer motivo, e já nos encantou com inúmeros projetos, incluindo ‘O Diabo Veste Prada’, ‘Um Lugar Silencioso’, ‘O Retorno de Mary Poppins’ e, mais recentemente, ‘Oppenheimer’ (cujo papel lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar). Aqui, ela reitera seu status camaleônico ao transmutar-se na desequilibrada e problemática namorada de Kerr, roubando os holofotes e, mesmo sem a ajuda de maquiagem e próteses, ficando irreconhecível em uma incursão fabulosa. E, considerando que Blunt e Johnson já trabalharam juntos no subestimado ‘Jungle Cruise’, a química entre os dois é apenas a cereja do bolo.
Em sua primeira investida solo, Benny Safdie constrói uma carta de amor a Kerr e ao mundo do MMA, inadvertidamente criando uma plataforma para celebrar a competência de seus astros principais. Tendo trabalhado anos ao lado do irmão, Josh Safdie, Benny encabeça seu primeiro projeto como diretor único e aposta fichas em uma estética documental que não segue o padrão estrutural de um, e sim transfere essa predileção para a imagética: seja na câmera na mão, nos bruscos cortes e em uma seleção de cores palpável e muito sóbria, o realizador deseja aproximar o espectador da íntima e volátil vida de Kerr e o faz de maneira inescapável e, por vezes, escorrega em repetições e exageros.

‘Coração de Lutador: The Smashing Machine’ é uma competente cinebiografia que, mesmo não livre de erros, consegue nos encantar com a história de Mark Kerr e garantir que o ponto de maior sucesso seja o comprometimento fabuloso que cada membro do elenco tem com seu personagem atribuído – com destaque ao papel da carreira de Johnson e uma das entregas mais honestas e comoventes de Blunt.

