InícioCríticasCrítica | Criada por Benito Skinner, 'Muito Esforçado' é uma das melhores...

Crítica | Criada por Benito Skinner, ‘Muito Esforçado’ é uma das melhores séries de comédia do ano


Benito Skinner começou a ganhar bastante popularidade ao se transformar em uma das personas mais prolíficas das plataformas sociais da atualidade – inspirando-se em lendas da comédia para criar esquetes hilárias e que logo chamaram a atenção de Hollywood. Não demorou muito até que o ator fizesse sua estreia oficial no cenário do entretenimento com a série ‘Hitbox’, pouco depois sendo escalado em produções como ‘Queer as Folk’, ‘Curb Your Enthusiasm’ e o ambicioso longa-metragem de ‘Idiotka’, que fez sua estreia no Festival SXSW em março. Agora, ele faz sua estreia oficial como roteirista, produtor e protagonista da dramédia LGBTQIA+ ‘Muito Esforçado’.

A produção, que chegou ao catálogo do Prime Video no último dia 15 de maio, é centrada em Benny um jogador de futebol americano que fazia muito sucesso no Ensino Médio e sempre foi pintado como um garoto exemplo – com altas notas, selecionado como o orador de turma e rei do baile em seu ano de formatura, e um habilidoso atleta desejado por todas as alunas do colégio. Porém, Benny passou a vida escondendo um segredo de todos – sua verdadeira orientação sexual que tentava esconder enterrado em sua mente e focar no modelo que precisava representar para sua família e seus supostos amigos. Ao entrar para a criteriosa Universidade de Yale para cursar administração, o medo da rejeição e da própria libertação para ser quem é volta com força, lançando-o em uma espiral inescapável.



A narrativa parece ter sido tirada das experiências de Skinner, visto que ele revelou ser gay em seu último ano da faculdade – e trazê-las para as telinhas não é apenas um exercício de entretenimento, mas uma forma saudável e terapêutica de perceber a forma como evoluiu desde então. Afinal, essa experiência de “sair do armário” é conhecida a quase todos os membros da comunidade queer – e ver um enredo assim ser remodelado na forma mais pura da diversão tem um valor inestimável de uma representatividade que não se força a esvaziamentos de pauta, mas que foca em uma situação antropológica específica com jocosidade e despojamento. E, ao longo de oito curtos episódios, Skinner sabe muito bem o que está fazendo ao nos encantar com sólidas tramas e atuações irretocáveis.

É claro que o gênero em questão já foi explorado ad nauseam no show business, principalmente a partir dos anos finais da década de 2010. Skinner pega páginas emprestadas de nomes como Phoebe Waller-Bridge e Tom Perrotta para firmar uma comédia de situações com toques de non-sense que brilham das telas. O ótimo resultado não é apenas fruto de um roteiro ácido e marcado por deliciosos sarcasmos: essa jornada coming-of-age é marcada com uma ótima química entre Skinner e o restante do elenco, que inclui Wally Baram como Carmem, uma recém-admitida de Yale que, em sua primeira noite, tenta transar com Benny e torna-se uma amiga para altos e baixos que, de fato, emerge como um dos enredos principais da atração.

Mary Beth Barone faz um ótimo trabalho como Grace, irmã mais velha Benny e um dos motivos pelos quais a pressão sempre acompanhou a vida do protagonista; aqui, ela posa como par romântico de Peter, um inconveniente e crianção veterano da universidade que parece não crescer e possui uma necessidade intrínseca de chamar a atenção e reafirmar sua popularidade – e que é encarnado com maestria por Adam DiMarco. Por fim, Rish Shah desponta como Miles, um estudante do curso de cinema que chama a atenção de Benny por razões óbvias e que se torna o ponto de partida para que ele finalmente entenda quem é (e comece a tomar decisões por conta própria, sem medo se encontrar a felicidade).

Um dos aspectos de maior sucesso do show é a forma como os dramas adolescentes e jovens-adultos convergem para um mesmo ponto, seja em mostrar a díspare realidade entre o colégio e a faculdade, seja a maneira como convenções com as que crescemos e que nos são bombardeadas dia após dia permanecem mesmo quando estamos no auge de nossa liberdade. E essa preocupação com a sinceridade e a honestidade dos arcos de cada um dos personagens reflete-se num cauteloso cuidado estético – tanto na direção técnica quanto artística.

‘Muito Esforçado’ é uma grata surpresa do Prime Video e uma das melhores estreias do ano – trazendo Skinner em seu melhor através de uma jocosa declaração pessoalista e íntima que é analisada sob uma ótica original e recheada de incursões clássicas do gênero. Os oito capítulo que integram a primeira temporada passam em um piscar de olhos e nos deixam ansiosos para um provável segundo ciclo que, com certeza, tem muito a nos contar.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS