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Crítica | Cyclone – História Real Inspira Ficção Teatralizada Com Estreia no Festival do Rio 2025


Maria de Lourdes Castro Pontes. Também conhecida como Daisy. Foi uma dramaturga bastante conhecida na cena literária paulistana do início do século XX. Nascida em 1900, a Miss Cyclone, como se autodenominou a jovem, arrebatou o coração de um escritor e dramaturgo, Oswald de Andrade, com quem viveu um romance entre os anos 1917 e 1919, quando Daisy faleceu. A história desse furacão literário ganhou uma livre adaptação cinematográfica, o filme ‘Cyclone’, que teve sua exibição no Festival do Rio 2025.

Na coxia de um teatro, um grupo ensaia, preparando-se para uma apresentação importante. Enquanto isso, Daisy (Luiza Mariani) se envolve intimamente com o dramaturgo Heitor Gamba (Eduardo Moscovis, de ‘Querido Mundo’), que escreveu a peça. Mas, a verdade é que Gamba não a escreveu sozinho, pelo contrário: sem a ajuda crucial de Daisy no texto, a peça jamais teria sido concluída e o texto não teria ficado bom. Às vésperas de uma grande estreia no Theatro Municipal de São Paulo, Daisy passa a exigir que seu nome conste no panfleto da peça, pois, assim, conseguirá aplicar para uma bolsa de estudos em Paris. Entretanto, entre promessas e declarações de amor, Daisy aprenderá a duras penas que a vaidade de Gamba é maior do que seu sentimento por ela.



O filme começa com a entrevista de Daisy à bolsa de estudos, filmada com a protagonista olhando para o público. Essa estratégia do roteiro de Rita Pfiffer é duplamente interessante pois além de apresentar a protagonista (com o poderoso olhar confiante de Luiza Mariane) ao espectador, também apresenta o cerne da trama: estamos falando de teatro, não se esqueçam disso.

Ainda que livremente inspirado na vida de Maria de Lourdes Castro Pontes, pessoa real, e salva as devidas liberdades para abordar a vida dessa artista por um viés feminista e feminino totalmente contemporâneo, alguns elementos não se explicam no próprio filme e só fazem sentido se o espectador curioso for procurar informações por fora. Por exemplo, o principal escândalo de Daisy se envolver com o tal dramaturgo (que, na vida real, foi Oswald de Andrade) é que ela tinha apenas dezessete anos quando começaram o romance, ou seja, era menor de idade, e o drama que ela viveu para receber créditos pelos seus textos não era apenas para conseguir uma bolsa de estudos, mas porque Oswald já era muito famoso e influente na cena teatral paulistana, a Paulicéia Literária já começava a tomar forma e Daisy queria (e justamente merecia) ser reconhecida pela coautoria em determinados textos do poeta. Ou que na cena em que “neva” em São Paulo ocorreu de verdade, quando garoou na cidade quando a temperatura caiu abaixo de zero, e isso foi um grande evento na época.

Uma vez que nada disso está dito no filme, a profundidade do drama da protagonista vai para um outro lugar: a da mulher mais velha que, ao contrário das expectativas sociais, decidiu não querer ter filhos, não se casou e ainda quis escrever arte e trabalhar, em vez de ficar em casa. Amadurecer a trama foi uma estratégia interessante da adaptação, embora tenha conduzido o debate para um outro viés.

O destaque fica na força gutural que Luiza Mariani imprime na protagonista, suportando as situações com as emoções na medida certa – o que demonstra, também, a ótima condução da diretora Flavia Castro, que chamou Eduardo Moscovis, Karine Teles e Luciana Paes para engrandecer esse projeto.

Cyclone’ é um bom filme que apresenta ao grande público uma artista brasileira silenciada pelo machismo estrutural, funcionando como uma ótima introdução à esta história real e trágica da dramaturgia brasileira.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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