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Crítica | Daaaaaalí ! – Um mergulho cômico no caos genial de Quentin Dupieux


Depois do sucesso de Yannick (2023), lançado no Brasil pela MUBI, o prolífico cineasta francês Quentin Dupieux volta às telonas brasileiras com Daaaaaalí !, uma obra irreverente, cômica e ousada. Distribuído pela Bonfilm/O2 Play, o lançamento por aqui ocorre há quase dois anos da estreia no Festival de Veneza de 2023. A espera vale a pena: este é um dos melhores filmes recentes do cineasta francês, mestre em brincar com a lógica, a linguagem cinematográfica e o surrealismo.

Aqui, Dupieux faz o que sabe de melhor: desconstruir expectativas e, ao mesmo tempo, divertir-se. Daaaaaalí ! não é uma cinebiografia tradicional — nem pretende ser. Pelo contrário, o próprio ponto de partida do longa já escancara a farsa: uma jovem jornalista, Judith Rochant (Anaïs Demoustier), tenta sem cessar entrevistar Salvador Dalí, mas o encontro é constantemente adiado pelos caprichos e delírios do artista. A partir daí, o filme mergulha em um ciclo narrativo insano, um labirinto onde passado, presente e imaginação se confundem, ou melhor, colapsam.



Salvador Dalí, ícone do surrealismo, é interpretado por cinco atores ao longo do filme — todos excelentes, cada um à sua maneira: Edouard Baer (A Boa Esposa), Gilles Lellouche (BAC Nord: Sob Pressão), Pio Marmaï (O Acontecimento), Didier Flamand (Rios Vermelhos) e, especialmente, o humorista Jonathan Cohen (da série Flagrantes de Família). Com seu talento cômico natural, Cohen injeta um “decibel” a mais em cada cena,  entregando uma performance marcada por divertidos exageros e um carisma histriônico que o torna um dos destaques do longa. 

Assim como em Não Estou Lá (2007), de Todd Haynes, cuja encarnação de Bob Dylan é feita por vários atores para explorar suas múltiplas facetas, Daaaaaalí ! repete o efeito com o pintor espanhol, porém sem jamais tentar compreendê-lo, apenas insinuando suas máscaras, sua persona construída e seus delírios artísticos. A genialidade do filme reside nesses detalhes, pois Quentin Dupieux não está interessado em contar quem foi Dalí, mas sim em projetar um quadro próprio sobre quem poderia ter sido essa persona — e, sobretudo, sobre quem ele queria que acreditássemos que fosse.

A estrutura do filme é um espetáculo à parte. Em vez de seguir uma linha narrativa convencional, Daaaaaalí ! abraça o caos. Sua montagem brinca com o tempo e com o espaço de forma descarada: histórias dentro de histórias dentro de histórias, que se embaralham, se sobrepõem, se repetem e se contradizem. É como se estivéssemos dentro de um quadro em movimento, onde qualquer tentativa de lógica linear é sabotada pela própria lógica do absurdo. O resultado é uma esquizofrenia cinematográfica, isto é, um jogo surrealista onde a cada corte, a cada cena, tudo pode mudar.

Quentin Dupieux, como de costume, é econômico; sua narrativa de 77 minutos não possui rebarbas ou floreios desnecessários. Tudo é engenhosamente polido, como uma vinheta onírica. Mesmo o fim de maneira abrupta — algo já comum em sua filmografia —  é parte do jogo. A frustração de um desfecho inconclusivo vira piada. Afinal, um filme como esse não tem como acabar em velório; ele apenas para.

O mais impressionante é a maneira como o diretor e o elenco capturam a essência de Salvador Dalí sem jamais se prender a fatos. Não há referências diretas ao franquismo ou a aspectos controversos da figura histórica. Em vez disso, o foco está na caricatura, na mitologia construída por ele próprio. Os elementos recorrentes estão todos ali: o bigode icônico, o sotaque carregado, o narcisismo performático, e claro, as referências às suas obras mais célebres como A Persistência da Memória (1931) e O Grande Masturbador (1929).

A câmera de Dupieux brinca como uma criança solta no ateliê de Salvador Dalí, cruzando espaços e tempos com uma liberdade rara no cinema atual. Esta obra não é para quem busca uma biografia fiel ou um estudo histórico. Lançado próximo deste, o longa Dalíland (2022), de Mary Harron, com Ben Kingsley no papel do artista consagrado, tinha essa proposta e naufragou no marasmo. 

Este é um filme para quem quer se perder e mergulhar em uma viagem sem bússola pelo inconsciente de um artista. Conhecido pelos fantásticos Rubber, o Pneu Assassino (2010) e Deerskin: Estilo Matador (2017), Quentin Dupieux enaltece o grande pintor dentro do seu humor pautado no absurdo e a sua estética minimalista de sempre produzir com baixíssimos orçamentos. Daaaaaalí ! não é apenas um filme, mas uma experiência. E, como o próprio Dalí provavelmente diria: a realidade é superestimada.

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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