Ashley Nicolette Frangipane é um poderoso nome na indústria fonográfica que não é conhecido dessa maneira, e sim por sua atribuição profissional Halsey. A artista estadunidense (envolvida mais do que o normal em declaração controversas) fez seu début com Badlands em 2015 e logo chamou a atenção por seus vocais diferenciados e por sua estética contraditoriamente minimalista e explosiva; pouco depois, colaborou com a dupla The Chainsmokers, ganhando fãs ao redor do mundo e pavimentando seu caminho até Hopeless Fountain Kingdom, amadurecendo sua arte musical. Três anos depois de se manter reclusa, ela retornou com um novo e experimental capítulo de sua carreira, Manic – cujas escolhas nada convencionais são, de fato, o que mais chamam a atenção.

Logo de cara, percebe-se que Halsey alcançou um louvável amadurecimento lírico, fruto de seu envolvimento com causas como prevenção ao suicídio e ao assédio sexual, imprimindo suas características únicas em uma coesa produção supervisionada por nomes como Jon Bellion, John Cunningham e Lido. “Ashley”, faixa que abre o terceiro álbum de estúdio, é propositalmente evocativo e nostálgico, nutrindo de uma letra saudosista sobre alguém que já não existe mais, e que, ao mesmo tempo, permanece na fluência do tempo; tudo isso à medida que desenvolve um pano de fundo abafado, inclinado para as tendências contemporâneas do trap e do R&B (porém, não da forma explícita que artistas como Ariana Grande e Lil Nas X as utilizaram em suas últimas investidas).

A performer abusa da essência do country-pop nas novas músicas, mostrando que não pensa duas vezes antes de honrar suas principais influências: a ambientação explorada na emergência de Alanis Morissette é retraída para um dark-country em “You Should Be Sad”, cujas declarações de superação são acompanhadas de uma frenética guitarra e uma ecoante superposição de vozes. Ora, até mesmo a recém-vencedora do Grammy, Kacey Musgraves, empresta parte de sua estética para as delineações oscilantes que a lead singer esquadrinha aqui.  Não é surpresa, pois, que Morissette apareça na familiar, ainda que não tão palatável “Alanis’ Interlude”, que já premedita as últimas tracks do CD.

Halsey também brinca com as concepções minimalistas que abraçava com tanta força em suas obras predecessoras: de um lado, rende-se ao seu lado mais pueril e inocente com “Forever… (Is a Long Time)”, que chama a atenção por um primeiro ato onírico e pela transição inesperada para uma apresentação puramente sintética e adulta (terminando de forma abrupta antes de dar espaço para a próxima composição); do outro, volta-se para uma declamatória e flutuante análise com “Clementine” (uma das melhores e mais pessoais músicas que a cantora nos apresenta este ano).

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É interessante observar como o elemento-surpresa é a principal força-motriz do álbum. Em “I Hate Everybody”, o impactante e resumitivo título vai de encontra ao que poderíamos esperar, ao passo que dialoga com os estilos que já conhecemos da artista: é por isso que temos um pungente “pontilhismo” instrumental que respalda todo o almejo indie que, por mais que tenha deixado o principado de Halsey quando esta alcançou uma fama iminente, ainda é sutilmente cultivado para nos mostrar algo novo e que não esteja mais tanto em voga – como Kim Petras fez com o industrial pop ou Charli XCX fez com sua transgressora revitalização do PC music. Entretanto, não podemos deixar de apontar certas arquiteturas mercadológicas (que se postam com força quando ela é acompanhada de inúmeros compositores e produtores).

Enquanto poderíamos pensar que a performer trabalharia melhor por conta própria, várias faixas voltadas para a esfera mainstream são tão competentes quanto suas marcas registradas. Uma dessas primeiras aparições insurge na forma de “Graveyard”, que isola-se nos melódicos acordes do violão e no retorno para uma mescla entre a cantoria falada, o soubrette e o soprano falhado que a colocou no topo das paradas. Seguindo passos similares, temos a demarcada e trivial “Without Me”, enquanto “3 AM” se distancia da singela tecedura e acaba não funcionando tão bem quanto poderia. Em outras como “Finally // Beautiful Stranger”, Halsey nos agracia com uma memorável e narcótica apresentação que retoma aspectos de seus primeiros anos de carreira e os repagina do começo ao fim.

A cantora parece seguir sólida durante mais da metade de sua obra, mas começa a desandar conforme nos aproximamos do final. “Killing Boys” é uma monótona e esquecível investida; “Suga’s Interlude” a reúne com Suga, da boyband BTS, e se transforma em uma melancólica e inexplicável construção que varia do pop alternativo para o rap. Felizmente, “More” a coloca de volta nos trilhos através de sua atmosfera ressonante e romântica, caminhando para as duas últimas tracks, que voltam para o intimismo explorado no início do CD.

Manic ganha pontos pelo amadurecimento de Halsey em relação à sua própria estética e, ainda que repleto de pequenos deslizes e algumas escolhas que não cabem dentro da organicidade do álbum, a maior parte das canções avança em direção a um belo onirismo sensorial e autossuficiente que nos cativa desde a primeira nota.

Nota por faixa:

  • Ashley – 4/5
  • Clementine – 4,5/5
  • Graveyard – 4/5
  • You Should Be Sad – 5/5
  • Forever… (Is a Long Time) – 4,5/5
  • Dominic’s Interlude – 4/5
  • I Hate Everybody – 4/5
  • 3 AM – 2,5/5
  • Without Me – 3,5/5
  • Finally // Beautiful Stranger – 4,5/5
  • Alanis’ Interlude – 3/5
  • Killing Boys – 2,5/5
  • Suga’s Interlude – 2/5
  • More – 4/5
  • Still Learning – 3,5/5
  • 929 – 4/5
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