Crítica de Álbum | ‘Singular: Act II’ é uma íntima viagem pela vida de Sabrina Carpenter

Crítica de Álbum | ‘Singular: Act II’ é uma íntima viagem pela vida de Sabrina Carpenter

Nota:


Sabrina Carpenter saiu de uma conhecida jornada infantil para encontrar seu caminho e trilhá-lo da forma que bem entendeu. E, menos de um ano depois de ter lançado sua pessoal obra intitulada Singular: Act I, ela rouba nossa atenção mais uma vez para a segunda parte – Singular: Act II, obviamente -, concluindo um épico intimista que lhe fornece, passo a passo, segurança e identidade para se tornar conhecida pelo mundo inteiro. O resultado, pois, não poderia ser menos que sagaz, hábil e que ousou aglutinar em um mesmo lugar gêneros musicais excludentes entre si.   

O álbum abre com uma deliciosa balada intitulada “In My Bed”, cuja doce e conhecida voz da cantora, já dando o tom confessional que irá permear toda a produção. Afinal, seguindo os passos de sua conterrânea Ashley Tisdale (que lançou sua obra mais pessoal alguns meses atrás), ela explora de forma não convencional temas como ansiedade e pânico. Não é surpresa, pois, que a canção já se inicie com versos como “coisas pequenas se tornam tudo quando você não pensou que poderiam” e cultiva, através da sutileza do baixo e dos sintetizadores, um crescendo que pode esbarrar em certas fórmulas, mas certamente não perde força.

Analisar as composições de Carpenter é sempre um trabalho interessante, mesmo que não seja fácil (por assim dizer): a jovem artista tem uma capacidade única de não deixar que o escopo instrumental tire o protagonismo de seus vocais – e é justamente o que faz tanto na primeira track quanto no trap “Pushing 20”. É um fato dizer que a composição toma emprestado construções predecessoras (vide “OMG”, de Camila Cabello e Quavo), porém, se afastando do gênero que ganhou os holofotes dos últimos anos, a segunda parte do refrão explode inesperadamente com auxílio da bateria e do teclado eletrônicos, além de deixar bem claro que a singer não veio para brincar e está pronta para explorar novos territórios.

Em uma notável contradição, Sabrina também não abandona suas raízes – trazendo elementos de Singular: Act I para “I Can’t Stop Me”, ao mesmo tempo que funde em experimentalismos interessantes o pop e o trap. Acompanhada da rapper Saweetie. Talvez com uma urgência apressada demais, ela também utiliza essa originalidade profissional para já dar a volta por cima (refletida pelo próprio título da faixa) e mostrar quem realmente está no controle. Já em “I’m Fakin”, a cantora aproveita um nicho bastante específico do R&B para entregar a seus fãs uma deliciosa aventura romântica que traz uma perfeição sonora memorável, culminada de sua tonalidade mais grave e dos bridges que antecedem o chorus.

Se ‘Act I’ nos colocou em uma zona de conforto aprazível, ‘Act II’ emerge em uma tentativa de nos incomodar. O propósito é bem claro desde os minutos oficiais do novo CD, recebendo uma roupagem diferente e nostálgica com “Take Off All Your Cool”: de imediato, podemos pensar que essa balada romântica desconstruída é superficial demais para as icônicas letras que Carpenter já nos apresentou; todavia, essa percepção momentânea não é o bastante para tirar seu brilho ou sua positiva mensagem – mesmo perdendo alguns pontos por nos dar sensação de reciclagem de sua própria investida “Bad Times”, conhecida de cabo a rabo pelos ouvintes mais assíduos. De qualquer forma, as batidas do synth e do dance-pop, aliadas aos fluidos versos, conseguem falar mais alto.

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O conceito engessado de ballad também aparece com “Tell Em” e, na verdade, não nos causa muita surpresa. Felizmente, o que poderia representar um considerável decaimento na qualidade do álbum é lapidada com o máximo de cautela e arquiteta uma atmosfera deliciosa e sexy que une o auge dos anos 1990 com a contemporaneidade da década de 2010. Os aspectos sintéticos da faixa restringem-se à brevidade e à vibe dark fornecida pelo baixo, permitindo um diálogo entre a oscilação dos tons dos quais a cantora se dispõe – renascendo de um solilóquio linear para um falsetto incrível. A presença de um coro como pano de fundo, por mais sutil que seja, não está ali de modo fragmentário, e sim como respaldo para a lead singer.

“Exhale” surge como mais um ápice de Carpenter. A construção em mid-tempo fala sobre as pressões da vida e ansiedade, dialogando com a faixa inicial em uma relação de causa e consequência: seja pelo bem delineado baixo ou pela entrada inesperada dos violinos no segundo ato, a música entrelaça o melhor do electro-pop com o R&B e dá origem a mais uma lenta declaração de apoio da artista, nunca cedendo à saturação de um mesmo tipo de composição. Já em “Take You Back”, Sabrina volta para seus dançantes esforços, nos levando de volta algumas décadas com o piano e o saxofone, mas não tão longe que nos faça esquecer da época em que estamos.

E quando pensávamos que a cantora não poderia mais surpreender, ela nos entrega uma sedutora conclusão em parceria com a competente produção de Johan Carlsson. Por mais solta que “Looking at Me” possa parecer em comparação às outras iterações, a track é preconizada pela que a antecede e atinge o mesmo nível de envolvência que “Havana”, também de Cabello. Os toques do sintetizador casam perfeitamente com a ambiência latina; dito isso, as lyrics seguem um tour-de-force erguido para superar os obstáculos da ansiedade.

Sabrina Carpenter continua em uma onda que beira a perfeição acústica – e Singular: Act II só acrescenta mais uma camada à sua versatilidade artística e identitária, nos deixando prontos para a próxima aguardada aventura de uma das grandes vozes da atualidade.

Nota por faixa:

  • In My Bed – 4/5
  • Pushing 20 – 4,5/5
  • I Can’t Stop Me (feat. Saweetie) – 3,5/5
  • I’m Fakin – 4/5
  • Take Off All Your Cool – 3,5/5
  • Tell Em – 5/5
  • Exhale – 5/5
  • Take You Back – 4,5/5
  • Looking at Me – 4,5/5


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