Crítica de Álbum | The Lion King: The Gift – Por incrível que pareça, Beyoncé não é a melhor coisa do álbum

Crítica de Álbum | The Lion King: The Gift – Por incrível que pareça, Beyoncé não é a melhor coisa do álbum

Nota:


Atenção: os interlúdios não foram analisados na crítica.

Beyoncé Knowles-Carter é uma das grandes vozes da geração e, sem dúvida alguma, uma das artistas mais versáteis e aclamadas da indústria fonográfica. Nos últimos anos, a cantora e produtora lançou-se em uma onda de incríveis feitos para a esfera musical e do entretenimento, tendo lançado a obra-prima Lemonade e, para homenagear sua impecável performance no Festival Coachella, lançou um documentário intitulado Homecoming que foi indicado a nada menos que seis categorias do Emmy Awards – além de ter divulgado um álbum ao vivo que se tornou sua maior conquista da carreira entre o público e a crítica especializada.

Mas isso não foi tudo: Beyoncé, assim como Lady Gaga fez no ano passado com Nasce Uma Estrela, nos convidou para voltar aos cinemas e prestigiar o remake de O Rei Leão, no qual interpreta Nala. Para o longa-metragem, escreveu a mediana música “Spirit” (que provavelmente irá concorrer ao Oscar de Melhor Canção Original ao lado de outras faixas dos próprios estúdios Walt Disney) e, pouco depois, voltou aos holofotes ao compartilhar um álbum de estúdio com sua curadoria intitulado ‘The Lion King: The Gift. Com um montante impressionante de 27 faixas, das quais treze são tracks originais, uma funciona como versão expandida da faixa supracitada, e as outras são interlúdios do próprio filme.

Considerando sua incrível capacidade artística e cultural – afinal, Beyoncé em se tornando uma expressiva voz na luta racial e abraçou a descendência africana de uma forma nunca antes vista em sua carreira -, era quase óbvio que esperávamos grandes coisas desse compilado de competentes nomes, mas o resultado não é exatamente esse: The Gift é, como o nome diz, um presente direcionado para os fãs e que até nos faz esquecer da medíocre e bizarra obra cinematográfica; porém, a lead singer é ofuscada por uma amálgama de outros artistas cuja presença é muito mais poderosa que a dela. É até irônico imaginar que Beyoncé consegue perder palanque, mas é isso que infelizmente acontece.

Essa nova obra já abre com “BIGGER”, uma balada com ares eletrônicos que mais funciona como uma etérea e épica declamação na qual somos “parte de algo maior que você, maior do que nós, maior do que a foto que enquadraram para vermos”. Desnecessário dizer que a canção é recheada de poderosos versos (como o visto acima), mas são as sutilezas sonoras que pecam pelo excesso e pela artificialidade. A voz da artista mantém-se numa oscilante perfeição que explora sua deliciosa tecedura; a transição de um bloco para outro, todavia, parece forçado demais até para os ouvidos menos treinados – mergulhando inexplicavelmente em um fragmentário R&B em vez de continuar explorando os batuques africanos.

Aproveite para assistir:


A ideia de Beyoncé é unir em um mesmo lugar inúmeros ritmos musicais, da mesma forma que fez em suas obras anteriores. Nas várias faixas originais, e até mesmo nos interlúdios, ela encontra espaço mais que suficiente para tornar essa promessa realidade. Seja com o hip-hop de “MOOD 4 EVA” ou com o afrobeat de “JA ARA E” (conduzido com exímia envolvência por Burna Boy), é notável como a produção é pensada com minúcia e carinho. Em uma diferente perspectiva, algumas tracks já se deparam com obstáculos a priori intransponíveis ou preguiçosamente deixados para “enfeitar” o escopo sonoro. A mistura de pop com R&B de “FIND YOUR WAY BACK” é um desses exemplos, visto que a fusão é rechaçável o suficiente para torná-la esquecível numa comercialidade qualquer.

O jovem músico nigeriano Salatiel é uma das grandes revelações promovidas pelo álbum e se encontra numa deliciosa rendição africana com “WATER”, dividindo protagonismo com a lead. Entretanto, ela é deixada em segundo plano pelas delineações em falsetto e em grave que permeiam a peça – e nada disso seria possível sem a ajuda da capacidade lírica de Nija Charles, que trabalha com os Carter desde 2017. Assim como Salatiel, Kendrick Lamar, 070 Shake e Childish Gambino são outros nomes que aparecem com força descomunal principalmente na construção identitária (vide “NILE” e a poderosa “SCAR”).

Beyoncé recupera alguns elementos de seus discos anteriores – aqui, menciono com ênfase o icônico ‘BEYONCÉ’ -, em “BROWN SKIN GIRL”, mesmo que a unidimensionalidade vocal e instrumental dos cantores transformem a obra em uma cantiga infantil demais para se aproveitar alguma coisa, com exceção do notável coro afro-americano. De fato, a artista encontra espaço para se divertir e explorar todas as suas habilidades com a divertida e dançante “ALREADY”, talvez um pouco tarde demais para que seja considerada a força-motriz dessa epopeia. Felizmente, a colaboração de Bey com Shatta Wale e com Major Lazer é uma pequena joia num vasto oceano que funciona do começo ao fim.

‘The Lion King: The Gift talvez seja a primeira investida artística de Beyoncé em que ela perde força por ter chamado uma quantidade imensurável de vozes incríveis para acompanhá-la nessa epopeia africana. Apesar de isso não ser o principal problema, e sim a falta de estruturação de diversas faixas, o álbum é aprazível em sua completude, mesmo que não demonstre de fato o potencial de sua lead e curadora.

Nota por faixa:

  • BIGGER – 3,5/5
  • FIND YOUR WAY BACK – 2/5
  • DON’T JEALOUS ME – 4/5
  • JA ARA E – 5/5
  • NILE – 3/5
  • MOOD 4 EVA – 4/5
  • WATER – 4/5
  • BROWN SKIN GIRL – 3/5
  • KEYS TO THE KINGDOM – 3,5/5
  • ALREADY – 5/5
  • OTHERSIDE – 3/5
  • MY POWER – 4,5/5
  • SCAR – 5/5
  • SPIRIT – 2,5/5


COMENTÁRIOS