Crítica | De Pernas Pro Ar 3 – Ingrid Guimarães volta quase dez anos depois e valeu a espera

Crítica | De Pernas Pro Ar 3 – Ingrid Guimarães volta quase dez anos depois e valeu a espera

Nota:


Conflito de Gerações

Sim, já tem quase dez anos (sete para ser mais preciso) desde que vimos Alice Segretto (Ingrid Guimarães) pela última vez. E não é normal uma franquia de sucesso esperar tanto tempo entre seus capítulos. Bem, pode não ser usual, mas acima de tudo demonstra respeito da equipe com o público, para confeccionar o material certo, no momento certo, com o roteiro certo e não apenas entregar um filme apressado e repetitivo. E o que podemos dizer é que valeu a espera, apesar da saudade.

O principal elemento que precisava estar maduro era…, bem, a própria protagonista, já que o tema central da história desta vez é o conflito de gerações e o peso da idade. Percebendo que perdeu alguns dos melhores anos de seus filhos e sua família em nome do trabalho, Alice resolve abrir mão do cargo de chefia de sua empresa, e deixa tudo nas mãos da mãe, papel de Denise Weinberg. Agora, a mulher tenta se readaptar às funções do dia a dia, como estar mais envolvida na educação da filha, conhecer as outras mães (o que rende uma das cenas mais engraçadas do longa), dar atenção ao marido, cuidar de si e se conscientizar que o primogênito já não é mais uma criança.

No entanto, essa calmaria não vai durar, porque precisamos ter um conflito na trama. Assim, ele surge nas formas da bela e carismática Samya Pascotto. No papel de Leona, a jovem atriz é o retrato do empreendedorismo dos novos tempos, ou seja, ela é dona de seu próprio negócio online, trabalha muito, tem ótimas ideias adequadas à modernidade e só faz abrir portas consecutivamente. Ah sim, ela está no mesmo ramo que Alice e desenvolve um revolucionário produto sexual: óculos de realidade virtual. Sentindo-se ameaça, Alice começa a cogitar um retorno ao mundo profissional, e para piorar a situação, Leona começa a namorar Paulinho (Eduardo Melo), o filho de sua “rival”.

Confesso nunca ter visto Samya Pascotto em cena, e foi só durante a exibição deste filme que foi retornando à mente o fato de tê-la entrevistado ano passado para o vindouro Canta pra Subir (em fase de pós-produção). Na ocasião, sua simpatia e simplicidade chamaram atenção, e agora são equiparados por seu talento como atriz. Samya é um dos pilares de De Pernas Pro Ar 3, ganhando grande destaque e se mantendo à altura do desafio. Raras vezes presenciamos uma jovem com domínio de veterana – sua presença em cena é simplesmente refrescante. Ao ponto de bater uma bola redondinha com uma gigante do nível de Ingrid Guimarães, que dispensa apresentações e elogios.

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A química entre as duas não poderia ser melhor, e o timing cômico é simplesmente cronometrado. Mais uma vez, a surpresa fica por conta de Samya, já que Ingrid é ‘professora’ nesta arte. Não podemos esquecer de outros elementos responsáveis pelo sucesso. O primeiro é a adição de uma diretora do porte de Julia Rezende no comando desta vez, substituindo Roberto Santucci dos filmes anteriores. Para um embate entre mulheres empoderadas e suas questões, era necessária a sensibilidade apurada de uma mulher, e quando temos em jogo o olhar de uma especialista nos sentimentos femininos como Rezende (cuja filmografia imprime obras como Ponte Aérea, Um Namorado para minha Mulher e Como é Cruel Viver Assim), sabemos que as peças estão alinhadas de forma ideal.

No terceiro filme temos ainda o toque da própria Ingrid Guimarães, que trabalha no texto de maneira mais incisiva (sendo creditada pela primeira vez como uma das roteiristas) e ainda produz. O resultado é uma comédia leve e despretensiosa, mas muito inteligente, que aborda tópicos relevantes, pertinentes e sempre em voga, e o faz de forma descontraída. De Pernas Pro Ar 3 é um dos raros casos (e não apenas no Brasil) de uma comédia em plena sintonia com o mundo atual, de onde tira muito de seu humor, o ligando com situações extremamente identificáveis para todo tipo de público.

O embate entre o antigo e o moderno estará sempre em pauta, e aqui os realizadores o modelam de forma bastante arrojada, garantindo uma dinâmica natural entre essas duas mulheres muito parecidas, cuja única diferença é a separação através de alguns anos de estrada. O tempo passa e é preciso se manter atualizado e se renovar, pois num piscar de olhos constantemente acordamos em um admirável novo mundo. Uma coisa, porém, sempre falará mais alto: a voz da experiência. E assim como Alice, Ingrid Guimarães tem bagagem de sobra para seguir emplacando suas comédias espertas e acima da média, e clamar seu posto como uma das maiores estrelas de nosso cinema.



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