Crítica de Trilha Sonora | Descendentes 3 – Um rip-off musical

Crítica de Trilha Sonora | Descendentes 3 – Um rip-off musical

Nota:


Kenny Ortega é conhecido na indústria do entretenimento juvenil por algumas obras que parecem se isolar no expansivo mundo Disney. Além de ter dirigido o subestimado Abracadabra na década de 1990, comandou a trilogia Channel High School Musical, contribuindo inclusive para a coreografia. Não é surpresa, pois, que os filmes musicais tenham caído no gosto popular, principalmente devido à memorável trilha sonora que ajudou a lançar a carreira de diversos novatos – como Ashley Tisdale, Zac Efron e Vanessa Hudgens. Em 2016, Ortega retornou para a cadeira de direção com uma nova franquia intitulada Descendentes, contando a história dos filhos dos heróis e mocinhos dos icônicos contos de fada. E, como já era de se esperar, o cineasta também supervisionaria a criação de uma nova OST – que, no geral, falha bastante em encontrar uma identidade sonora.

Em Descendentes 3’, suposto e esperado último filme da saga, diversos nomes de peso contribuem para construir as canções, mas nem mesmo a incrível capacidade desses artistas ofusca o fato de que cada uma das tracks se rende a um gênero e, eventualmente, cria uma bagunça incompreensível que se salva do desastre total por muito pouco. De fato, são certos performers e a sensação gritante de nostalgia que emana das composições – ainda que algumas delas sejam rip-offs malfeitos e sem nem mesmo um pingo de originalidade. Nem mesmo levar em consideração que a trilha em si é feita para um público mais infantil é o bastante para varrer para debaixo do tapete tantos deslizes e descuidos.

O álbum abre com a enérgica “Good to Be Bad”, a qual já nos introduz a uma nova história. Entretanto, o prelúdio do primeiro ato não chega aos pés de “Rotten to the Core” e, comparando a situação dos protagonistas, nem mesmo serve como paradoxo. É claro que os quatro anti-heróis retornam para sua ilha natal para convocar novas crianças para Auradon e, ainda que tentem permanecer verdadeiros às suas personalidades, parecem tão conturbados quanto a música que nos apresentam: a mixórdia estapafúrdia de gêneros é tão enredada que chega a ser difícil colocá-la em algum gênero; temos a presença dos breaks clássicos do pop e do hip-hop que remontam vagamente a Michael Jackson, e a superposição de vozes em várias camadas tão utilizada por artistas femininas (incluindo Britney Spears no começo da carreira).

Logo depois, Sarah Jeffery insurge em seu solo “Queen of Mean”, abraçando seu lado vilanesco em uma construção genérica e praticamente roubada de “Speachless” (música original do live-action Aladdin, performada por Naomi Scott), mas sem a potência vocal que promete. Na verdade, as investidas da cantora são artificiais demais e não se sustentam por conta própria, levando-a a buscar uma entrega bizarra demais para ser levada a sério. Suas explorações pelo rap não encontram fluência o bastante, e as explosões aguardadas para um tipo de canção como essa simplesmente não existem.

De fato, Sofia Carson parece ser a única disposta o suficiente para encontrar sua voz – talvez devido ao fato de que a jovem tem um belíssimo alcance em mezzosoprano que contribui para sua própria identidade. E, mais aqui do que em qualquer outra track, a colaboração entre Matt Tishler e Paula Wingler acerta em escolher o pop-rock como base. “One Kiss”, dessa forma, é uma declaração de amor extremamente clássica que funciona com exceção de um equívoco ou outro, concentrados no bridge e na sequência que antecede o último ato. Convencional, pode-se dizer, mas bastante prático considerando o restante das composições.

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Enquanto isso, o time musical atira para todos os lados em “Do What You Gotta Do”, um classic-rock inexplicável com vibes de Elvis Presley que não drena química entre Dove Cameron e Cheyenne Jackson – nem mesmo se tentarmos ao máximo procurá-la; uma bruta emulação de “Immigrant Song” na transição de “Night Falls” (que é protagonizada por um número impressionante e exagerado de artistas); e uma cópia inesperada de “Dig a Little Deeper” (‘A Princesa e o Sapo’) para uma rendição guiada por China Anne McClain. Ao menos nesta última faixa citada, Randy Newman retoma suas próprias inclinações para o jazz e faz um trabalho decente, mesmo que não se iguale ao original em meio a uma pretensão desnorteadora.

O grande problema estrutural dessa trilha sonora é seu respaldo inspirador que, no final das contas, entra como base e principal progressão para quase todas as canções. Ainda que Ortega, durante a criação da história, tenha investido seus esforços em alcançar algo teatral e à la Broadway, parece perder a mão em momentos simples de serem lapidados, refletindo um amadorismo com o qual era mais cauteloso em seus outros longas-metragens. Não é surpresa, pois, que a narrativa seja espaçada em uma atmosfera infantilizada demais para o amadurecimento dos personagens, culminando em um finale grotesco que se envolve com “Break This Down”.

A trilha sonora de Descendentes 3’, por mais triste que pareça, é muito inferior aos seus predecessores, construindo algo incrível demais para ser comprado até pelo público mais jovem. O resultado é insosso o suficiente para darmos pulos de alegria que a franquia chegou ao fim, mas também expressivamente infeliz para que não desfrutemos de seu principal elemento: os números musicais.

Nota por faixa:

  • Good to Be Bad – 2/5
  • Queen of Mean – 1/5
  • Do What You Gotta Do – 2,5/5
  • Night Falls – 1,5/5
  • One Kiss – 4,5/5
  • My Once Upon a Time – 3/5
  • Break This Down – 2/5
  • Dig a Little Deeper – 3/5
  • Did I Mention – 3,5/5
  • Rotten to the Core (3D Remix) – 2/5
  • Happy Birthday – 3/5
  • VK Mashup – 2,5/5


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