Crítica de Trilha Sonora | ‘Frozen 2’ traz uma nova perspectiva para o épico e o intimista

Crítica de Trilha Sonora | ‘Frozen 2’ traz uma nova perspectiva para o épico e o intimista

Nota:


Seis anos depois de Elsa e Anna chegarem às telonas com Frozen – Uma Aventura Congelante’, os estúdios Walt Disney deram sinal verde para a aguardada sequência que, apesar de ter estreado há alguns dias nos cinemas internacionais, será lançada apenas em janeiro no território nacional. E, como já é costume do incrível panteão animado da Casa Mouse, os diretores Chris Buck e Jennifer Lee retornariam mais uma vez com uma jornada fantástica acompanhada do que apenas entendemos como uma das melhores trilhas sonoras de toda a História da companhia – e não é por menos: entre investidas que nos lembram das incursões do jazz e do blues e os resgates anacrônicas dos estilos celta e indígena, a OST de Frozen 2’ é significativamente melhor e mais envolvente que sua predecessora.

A trilha escrita pela dupla Robert Lopez e Kristen Anderson-Lopez abre com a deliciosa cantiga “All Is Found”, performada pela cândida voz de Evan Rachel Wood como a Rainha Iduna. Logo de cara, a primeira música funciona como um obscuro e narcótico foreshadowing guiado pelas notas do violão que explodem, comedidamente, dentro do xilofone e do violino. E caso a melodia não seja o suficiente para nos engatar nessa epopeia, talvez a simbólica e belíssima letra consiga levar os ouvintes para uma convidativa e, ao mesmo tempo, perigosa jornada de autodescoberta e reflexão.

Desde o princípio, percebe-se que Robert e Kristen se preocupam não apenas em arquitetar uma saborosa narrativa fonográfica, mas também cuidam para que o público infantil se divirta com algumas propositais afetações instrumentais que permeiam as outras faixas do álbum. Temos, por exemplo, a otimista “Some Things Never Change”, que antecipa a chegada do outono a Arendelle e traz uma atmosfera de maior sabedora e amadurecimento para os personagens; para além disso, a canção insurge numa nostalgia inesperada que mantém relações com “When Will My Life Begin?”, de ‘Enrolados’. “When I Am Older” encontra espaço num espectro semelhante: o charmoso solo encarnado por Josh Gad usufrui de elementos do mickey-mousing, uma redundância sonora que basicamente acompanha todas as mudanças vocais do lead singer, e de uma interessante dissonância teatral que estende sua inspiração até mesmo para os cabarets da Broadway.

Mais uma vez, é Idina Menzel quem rouba nossa total atenção com duas tracks que beiram a perfeição estética e se afastam completamente das rendições do filme anterior. De fato, é muito fácil buscarmos semelhanças com “Let It Go”, uma das músicas mais famosas e mais aclamadas do universo Disney – mas essa é uma tarefa quase impossível: ademais da voz característica da performer, “Into the Unknown”, um dos primeiros singles lançados do novo longa-metragem, é um épico incrível que convida a própria Menzel a explorar outras vertentes de suas habilidades vocais. Essencialmente pautado nas demarcações frenéticas do violino, da bateria e do violoncelo – e respaldada pela presença marcante da artista norueguesa AURORA -, a faixa resplandece uma originalidade e um saudosismo emocionantes que culminam em um catártico finale.

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Pouco antes do terceiro ato, a artista retorna com a balada “Show Yourself”, que pode até ser encarada como continuação da canção predecessora, mas ganha uma sonoridade e uma independência únicas ao se valer de um poderoso liricismo. Após mergulhar em seu arco por sua conta, Elsa parte para os longínquos mares do Norte para conhecer seus pais (ou ao menos descobrir o que realmente aconteceu com eles naquela fatídica noite em que partiram de seu Reino e nunca mais voltaram). Em uma escolha um tanto quanto esperada, o uso da melodia em mid-tempo premedita um crescendo que se recua apenas para encontrar uma exploração máxima, perscrutada por pausas bem estruturadas, aglutinando-se em um ato de contrição puramente sensorial.

Jonathan Groff finalmente ganha seu momento com uma releitura cômica das ballads musicais. Em “Lost In the Wood”, seu personagem Kristoff reflete sobre os diferentes caminhos que ele e sua noiva, Anna (Kristen Bell) seguem, numa dramatização propositalmente excessiva que nos arremessa de volta para os anos 1980 e 1990 – e drena delineações já vistas em artistas como Lionel Richie e Céline Dion. Ora, se Groff se encontra confortável em homenagear até mesmo as incursões promovidas por Bonnie Tyler em suas declamatórias mensagens de amor, é porque é acompanhado pelos reconhecíveis instrumentais do soft-rock (vide a presença pungente da guitarra).

Os elementos celtas têm espaço de sobra para serem aprofundados na OST; além da faixa de abertura, Bell dá vida com a trágica rendição de “The Next Right Thing”, um chocante e um tanto quanto dark tour-de-force que delineia uma mensagem de esperança até mesmo nos momentos de pura desesperança – no caso, no momento em que ela se vê abandonada e deve seguir em frente por conta própria. Pouco depois, é a vez da incrível Kacey Musgraves promover sua perspectiva de “All Is Found”, com uma intimista versão country que abre as portas para uma inebriante e impecável experiência.

A trilha sonora de Frozen 2’ é tão espetacular quanto o filme e, do mesmo jeito que a narrativa se desenrola nas telonas, não apenas busca como alcança um resultado igualmente épico e intimista, e que seja fincado na mais pura e emocionante sinestesia pessoal. Dentre as diversas sonoridades que já existiram na Casa Mouse, essa certamente é um marco para os anos futuros – e um dos melhores compilados que a companhia já nos entregou.

Nota por faixa:

  • All Is Found – 5/5
  • Some Things Never Change – 4,5/5
  • Into the Unknown – 5/5
  • When I Am Older – 4,5/5
  • Lost in the Woods – 4/5
  • Show Yourself – 5/5
  • The Next Right Thing – 4,5/5
  • Into the Unknown (versão de Panic! At The Disco) – 4/5
  • All Is Found (versão de Kacey Musgraves) – 5/5
  • Lost in the Woods (versão de Weezer) – 4,5/5


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