Crítica de Trilha Sonora | O Rei Leão (2019) - Uma nostálgica revitalização

Crítica de Trilha Sonora | O Rei Leão (2019) - Uma nostálgica revitalização

Nota:


Nota: as faixas analisadas serão apenas aquelas acompanhadas por um performer.

Em 1994, Elton John criava história ao ficar responsável pela trilha sonora mais memorável de todo o panteão Disney: O Rei Leão. Ao afastar-se do costumeiro pop clássico visto nas animações dos anos anteriores, e até mesmo do épico orquestral das primeiras investidas do estúdio. Não é à toa que a soundtrack do longa-metragem foi revisitado diversas vezes e levou para casa inúmeros prêmios – e, por essa mesma razão, não poderíamos deixar de cultivar expectativas altíssimas para o retorno do compositor para o aguardado remake em live-action. E melhor: dentre o elenco de ponta, nomes como Donald Glover e Beyoncé estariam presentes ao se render às belíssimas baladas de Simba e Nala, resgatando um emocionante sentimento de nostalgia com duas potentes vozes da atualidade.

O que nos chama a atenção, tanto na trilha original quanto na de 2019, é a forte presença de elementos africanos, buscando uma identidade sonora muito diferente do eurocentrismo excessivo. E não pense que esse escopo cultural é apenas pontual: logo na icônica música de abertura, “Circle of Life/Nants’ Ingonyama”, Lebo M. empresta novamente sua potente voz para um espécie de invocação mnemônica que prepara o terreno para a bela performance de Lindiwe Mkhize. Mkhize, em sua tenra oscilação de notas graves para agudas, honra o nome de Carmen Twillie e moderniza a track, ainda que não ouse para muito além disso.


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De fato, é quase automático perceber de que forma John tem um objetivo bastante claro: a ideia aqui é, seguindo os passos dos outros remakes em live-action, buscar um equilíbrio entre a nostalgia pura e a repaginação necessária para um novo público que não cresceu com as animações originais. É por essa razão que os bridges aparecem com protagonismo bastante considerável, acompanhados em grande parte por uma epopeica bateria. Em “I Just Can’t Wait to Be King”, os sutis batuques mergulham num adorável e contraditório crescendo acompanhados pela letra de um inocente desejo do protagonista em se tornar rei. Apesar da canção transmitir uma sensação momentânea de festividades frívolas, John Oliver e os jovens JD McCrary e Shahadi Wright Joseph se divertem como nunca num dançante e reconfortante instrumental.

A clara mudança emerge com a maturidade de “Can You Feel the Love Tonight”, iniciada com o tragicômico prólogo de Billy Eichner e Seth Rogen momentos antes de Beyoncé e Glover se unem numa perfeita harmonização no primeiro refrão. É um fato dizer que a música se perde com o número saturado de instrumentos e um ritmo falho, mas reencontra-se no último ato seguida por tambores, bumbos e um divinal coro que culmina nas etéreas notas da flauta.

Beyoncé ganha seu momento-solo com o tour-de-force “Spirit”, uma das tracks originais do longa: em comparação com as investidas das obras conterrâneas, a canção funciona em sua completude e alcança um nível cultural esplendoroso – que peca com tantas coisas acontecendo. Seja com a dupla suaíli no início, seja com os elementos da cultura afro-americana (principalmente o coro), a artista se perde em sua entrega. Sua impecável voz até tenta criar dinamismo ao oscilar do grave para o falsetto, explodindo numa formulaica construção que, no final das contas, é uma aglutinação de todas as outras entradas da trilha – e nem a presença conhecida de ILYA e Labrinth na composição se esquiva disso.

Nesse quesito, John se atina ao sucesso com “Never Too Late”, cuja animada e espirituosa letra conversa com uma sulista guitarra e memoráveis batidas africanas. A atmosfera saudosista de “Don’t Go Breaking My Heart” pode estar um pouco deslocada e se perder no caminho, mas é a fusão das múltiplas camadas que funciona com praticidade e solidez. Porém, é Lebo M. quem arranca suspiros de êxtase, tanto com sua primeira rendição quanto com a tétrica “He Lives in You”: a dramaticidade de voz é comovente desde a abertura até o desfecho, acompanhada por metódicos chocalhos que não seguem os convencionalismos do épico, mas sim movem-se com fluidez ímpar.

Eichner e Rogen, por sua vez, drenam nosso foco para uma performance emblemática da tropical “Hakuna Matata”, cuja revitalização para o remake é aplaudível em todos os sentidos, pulando de gênero a gênero com a maior irreverência possível. Glover acaba vindo à tona com mais emoção que o jovem McCrary, mas nem esses breves deslizes apagam a beleza da track. Enquanto isso, numa esfera totalmente diferente, Chiwetel Ejiofor nos arranca arrepios com a nova versão de “Be Prepared” – diabolicamente teatralizada com rufantes e constantes tambores que, ao contrário da aguardada monotonia, florescem em uma brilhante catarse. A presença obscura dos violinos e dos violoncelos é agonizante e chocante por todos os motivos certos e pega vários elementos do compositor Hans Zimmer, que supervisiona a trilha.

John e Zimmer revitalizam à sua própria obra em uma deliciosa modernização que, no geral, é bastante aprazível. As mudanças são em grande parte bem-vindas, mas algumas delas falham em manter a organicidade da soundtrack – seja pela quantidade absurda de traços fragmentários, seja pela tentativa excessiva e pedante de nos causar emoção. Porém, é inegável dizer que temos em mãos um pedaço remoto de nossa infância que, de novo, irá deixar uma marca.

Nota por faixa:

  • Circle of Life/Nants' Ingonyama - 4,5/5
  • I Just Can't Wait to Be King - 4/5
  • Be Prepared - 5/5
  • Hakuna Matata - 4,5/5
  • The Lion Sleeps Tonight - 5/5
  • Can You Feel the Love Tonight - 3/5
  • Spirit - 2,5/5
  • Never Too Late - 3,5/5
  • He Lives in You - 5/5
  • Mbube - 4/5

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