Após ganhar notoriedade no Disney Channel com produções como ‘Camp Rock’ e ‘Sunny Entre Estrelas’, a cantora, compositora e antiga atriz Demi Lovato se lançou a uma carreira musical de reconhecimento significativo, principalmente por ser uma ex-act. Eternizando alguns hits como “Remember December”, “Confident”, “Heart Attack”, “Cool for the Summer”, Lovato logo mostrou uma predileção clara pelas incursões do rock, fazendo questão de infundir cada uma de suas investidas mercadológicas com elementos do gênero.
Em 2018, Lovato teve um lapso após seis anos de sobriedade e sofreu uma overdose em virtude de opioides, motivo pelo qual lançou a canção “Sober”, pedindo desculpas aos fãs pela “fraqueza”. Após entrar em uma clínica de reabilitação, agradeceu o apoio dos fãs e comentou que contaria ao mundo pelo que passou quando estivesse bem, criticando aqueles que criavam histórias fantasiosas sobre sua vida – e garantindo que ela, de fato, mergulhasse no rock. Não é surpresa que seu mais recente álbum de estúdio tenha sido o elogiado ‘Holy Fvck’, que caiu na graça de seus fãs e reiterou a predileção da performer pela expressividade gritante de um estilo musical que considerávamos morto.
Agora, três anos depois de seu último compilado de originais, Lovato abre uma nova página de sua carreira com o lançamento inesperado de “Fast”, lead single de seu vindouro nono álbum de estúdio. A faixa se afasta por completo das investidas mais recentes da artista ao funcionar como uma celebração em convergência de inúmeras ramificações do pop, seja na exploração modernizada do diva house e dos característicos elementos das batidas four-on-the-floor, que unem os anos 1990 com a contemporaneidade em uma construção mais abrandada e sensual; seja em esquadrinhações que incluem a música eletrônica e o electro-dance característicos dos anos 2010 – promovendo uma aproximação aos pop bangers de Britney Spears e Lady Gaga à medida que trilha sua identidade.
Lovato, aqui, fica responsável por assinar a letra da música ao lado de uma gama de compositores que se afastam da maximização e optam pela nostalgia – ainda que certas repetições existam. Todavia, é muito interessante e divertido ver a performer resgatar suas eras de maior glória no cenário fonográfico e arquitetar uma narrativa conhecida e bastante funcional sobre dois amantes que explodem em química e paixão (“não tenho certeza se já me senti assim antes” e “eu quero ir a qualquer lugar, qualquer lugar que você esteja” são alguns dos versos que compõe a empreitada e reiteram esse enredo quase carnal).
Através de breves três minutos de duração, Lovato tem plena ciência do que está fazendo e, de maneira autossuficiente, reclama seu lugar no show business sem intenções mercadológicas baratas – e sim entregando um presente para seus fãs. Unindo-se ao produtor Kevin “Zhone” Hickey, somos convidados para uma jornada que inclusive singra por momentâneas inclinações do deep house e pelo uso constante de sintetizadores, em contraste com uma rendição vocal que foge do exagero antêmico e que preza por um escopo mais intimista e narcótico.
É claro que, como lead single, alguns equívocos não podem ser deixados de lado; mas “Fast” eventualmente posa como uma ressurgência inicial de uma artista que ainda tem muito a nos contar e que, por essa razão, merece ser apreciada na ideia que calca desde os primeiros segundos.
