Crítica | Demolidor – 3ª Temporada – A melhor e mais sangrenta temporada

CríticasCrítica | Demolidor - 3ª Temporada - A melhor e mais sangrenta temporada

Diante de seus traumas, nu perante suas fragilidades, Matthew Murdock sempre esteve exatamente naquela famosa linha tênue que separa o heroísmo do vilanismo. Como um hábil equilibrista, sempre andou na corda bamba que o distinguia como um vigilante, ao invés de um assassino. E sua simbólica analogia a Philippe Petit – sempre perto da morte, mas seguro o bastante em seu equilíbrio – entra em rota de colisão na terceira temporada de Demolidor, à medida que vemos o Rei do Crime emergir com bravura e destreza, driblando todos ao seu redor, conforme os transforma em seus próprios fantoches numa versão macabra de Vila Sésamo. E entregando não apenas o ápice da caracterização humana e heroica do astro Charlie Cox, a Netflix nos convida a um banquete de pura sanguinolência, fazendo escorrer pelas telas o ardor da violência gráfica, honrando sua censura e, claro, nossa atenção.

Poderia ser mais devagar. Não precisávamos consumir tudo de uma vez. Mas como a cultura da maratona, do binge watching foi incentivada pela própria Netflix, dar tempo ao tempo é uma atitude leviana. E com um brilhante roteiro e um dinamismo surpreendente que percorre as muitas mãos dos diretores e diretoras que assinam cada um dos 13 capítulos, Demolidor se transforma em um prato cheio, degustado com intensidade e voracidade. Exatamente como o próprio desenvolvimento da narrativa. E assim como o vilão vivido por Wilson Fisk, sob a excepcional assinatura de Vincent D’Onofrio, ganha aquela identidade imprensa nos quadrinhos, a série vai se desdobrando para as temporadas futuras, abrindo caminhos para a chegada de um dos maiores arqui inimigos do Diabo de Hell’s Kitchen, mostrando que – se continuar mantendo a essência fundamental do material fonte, conteúdo de qualidade haverá de sobra.

E muito mais que fazer a já aguardada e sabida apresentação do Mercenário, o terceiro ciclo de Demolidor esmiúça o protagonista sem dó, mostrando os cantos sombrios de sua alma com uma gigante lupa. Ao estimular seus questionamentos, complexos e traumas de infância, seu lado mais humano aflora, parecendo dominar sobre a integridade e caráter que sempre o renderam o título de herói. Colocando-se na berlinda por mais de uma vez, sua profunda ligação com o Cristianismo ganha proporções bíblicas (trocadilho não intencional), que por vezes tentam segurar o apelido de Diabo que – conveniente e propositalmente – contradizem o significado ao pé da letra de seu nome original em inglês, Daredevil (que seria aquele que “desafia o Diabo”).

E estes confrontos da psique humana que levantam questionamentos torturantes não se restringem apenas ao Demolidor. O núcleo principal de personagens de destaque são tomados por esse redemoinho, que gera uma série de epifanias em que agentes do FBI, vilões e propensos a tal contestam seus respectivos graus de moralidade e se despem do suposto idealismo ético pelo instinto de sobrevivência. A famosa balança da justiça ganha pesos distintos e juízos de valor mais densos e chega a promover uma reflexão profunda em seu próprio público, que tenta digerir a violência gráfica e a autenticidade de suas motivações.

Cercados também pelas atuações estarrecedores de Deborah Ann Woll e Elden Henson, a série mantém um nível impecável, que engloba desde o dinamismo entre seus personagens, passando pela qualidade fílmica e construção de clímax e plot twists que dão um nó na audiência. Dentro deste contexto, as cenas de luta novamente se destacam, revelando coreografias espetaculares, um trabalho corporal impressionante de Charlie Cox e uma genialidade na captura dos movimentos pela câmera. Não se eximindo da responsabilidade de produzir uma série tecnicamente bem feita, o público é presenteado com um das melhores tomadas já feitas desde sua estreia. Atente-se ao episódio quatro, a um plano sequência dentro da prisão. Sua perfeição é quase como um balé clássico, tamanha precisão e sincronia.

Mantendo a tensão nos momentos cruciais e fazendo jogos mentais tanto dentro da trama como fora, Demolidor alcança seu pico mais alto, elevando todos os parâmetros a novos patamares, mostrando que há sempree muito mais do que podemos esperar e imaginar. Apaziguando os ânimos em uma finale suave e sensível, a série traz o refrigério que não tivemos ao longo dos quase 13 episódios completos. Mas mostrando que, em tempos de cólera, não há paz que perdure tempo demais, a Netflix reitera que aquele vilão que achávamos termos sido apresentados, sequer teve suas devidas honras. Então, que venha a quarta temporada e todos os alvos que ela possa trazer. Se é que você me entende.

 

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