Todo mundo lembra daquela cena em que, no centro do tela, Carolina Dieckmmann teve seus cabelos cortados no momento ápice da novela ‘Laços de Família’, em que interpretava a jovem Camila, diagnosticada com leucemia. Até hoje esta cena reverbera no storytelling da dramaturgia brasileira, e é considerado um marco na carreira da atriz. De lá para cá, muitas novelas rolaram, e filmes também, mas nada como o que vocês verão em ‘(Des)controle’, nova produção estrelada por Carol que chega aos cinemas nacionais a partir do dia 5 de fevereiro.

Kátia Klein (Carolina Dieckmmann) é uma renomada escritora de livros infantis que há 15 anos mantém a sobriedade. Ela também é mãe de dois meninos, Duda (Stéfano Agostini, de ‘D.P.A.’) e Bernardo (Rafael Fuchs Müeller), e cuida de todos os afazeres dos meninos desde a escola ao Bar Mitzva de Bernardo, enquanto o marido, Zeca (Caco Ciocler, de ‘As Polacas’) pratica ioga e diz que a esposa tem que se desestressar. Porém, com o prazo apertado do livro, a gerência da casa e a administração da agenda dos filhos e da sua carreira, não só Kátia não consegue focar em escrever, como se sente pressionada por todos os lados – o que a leva a uma recaída na bebida. A partir do primeiro gole, Kátia começa a se soltar mais a inspiração vem, mas, com essa escolha, terríveis consequências começam a acontecer na sua vida.
Interpretar um papel de uma pessoa alcoolista é bem difícil, pois, sem estar efetivamente entorpecido(a), a atuação por vezes pode sair superficial. Não é o caso aqui. Carolina Dieckmmann dá um show de atuação em ambos os papéis que interpreta em ‘(Des)controle’: tanto o da mãe nervosa com a sobrecarga mental em gerenciar a agenda de todos da casa com um marido que também não faz a sua parte na comunidade familiar, quanto da adulta que se sente no limite de tudo e, como fuga, encontra na bebida o alívio que o cotidiano não entrega. Carol convence em todas as suas cenas e é impossível (principalmente para nós, mulheres adultas) não nos identificarmos com a dor que essa mulher está passando em tentar trabalhar com o criativo enquanto tem que que gerenciar tantos compromissos o tempo todo, lembrados a ela por um celular que apita sem parar (e fica aqui também o alerta da toxicidade da dependência eletrônica).

E isso tem muito a ver com o roteiro escrito por Iafa Britz (que também produz o longa e é personagem do filme, aparecendo em participação especial), com a colaboração de Bia Crespo, Felipe Sholl, Gabriel Meyohas e Rosane Svartman, bastante atento à humanidade da protagonista em todas as suas camadas, atribuindo-lhe profundidade sobre seus dramas pessoais e suas relações interpessoais (em especial com sua agente, Leo [Júlia Rabello]) em um filme que pode e deve atingir ao grande público.
A direção sensível da sempre ótima Rosane Svartman com Carol Minêm engaja a emoção do espectador na jornada dramática da protagonista, principalmente nas situações em que ela se coloca em direção ao fundo do poço. Difícil segurar lágrimas quando enfim esse poço chega. Vale esclarecer sobre uma cena quase no final, em que a personagem imaginária Vânia reaparece na caçamba de um caminhão, que essa cena é uma metáfora, ela não acontece de verdade, é símbolo narrativo. Em tempos de graves interpretações de texto da sociedade, esta cena, solta no meio de uma sequência, pode levar a interpretações erradas se não explicada.
‘(Des)controle’ é um filmaço honesto e sincero, que entretém sem, por isso, ser raso. Ao contrário: fala diretamente com o grande público sem subestimá-lo, trazendo uma história humana através da qual muitos (e muitas) vão se identificar.



