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Crítica | ‘Desobedientes’ tem uma premissa muito interessante, mas não consegue alçar voo


Na fictícia cidade de Tall Pines, existe uma misteriosa instalação que posa como uma academia educacional para “adolescentes problemáticos” – isto é, jovens que constantemente remam contra as normas e a etiqueta familiar e se metem em constantes confusões, desde pequenos furtos até o uso de drogas. A facilidade é comandada a mãos de ferro por Evelyn Wade (Toni Collette), uma coach de vida e uma estranha terapeuta que utiliza métodos nada convencionais para “curar” os adolescentes, escondendo segredos sombrios que estão fortemente escondidos pelas sólidas paredes da academia.

As coisas começam a mudar quando um detetive recém-chegado à cidade, Alex Dempsey (Mae Martin), começa a descobrir coisas inefáveis e controversas envolvendo não apenas da coach, mas sua esposa grávida, Laura (Sarah Gadon), que foi uma das pupilas de Evelyn e ainda lida com inúmeros traumas que vão se revelando dia após dia. E isso não é tudo: Alex se une a duas jovens, Leila (Alyvia Alyn Lind) e Abbie (Sydney Topliffe), ambas forçadas a estudarem na academia para se livrarem de todos os trejeitos problemáticos de suas personalidades e tornaram-se pessoas exemplares – algo que, como podemos imaginar, sai do controle conforme o policial e as meninas unem forças para destruir o império de Evelyn e impedir que ela continue seu reino marcado por tragédias e manipulações constantes.



Essa é a trama por trás de Desobedientes, nova minissérie da Netflix que foi disponibilizada neste último dia 25 de setembro na grade de programação. Ao longo de oito episódio, Martin, que serve como criador e co-showrunner da atração, nos convida para desvendar os mistérios surpreendentes e tenebrosos que se escondem nas florestas de Tall Pine – e de que forma a cidade e seus habitantes foram colocados em um inconsciente transe por Evelyn e seus métodos medievais e torturantes. Porém, apesar de uma interessante premissa e de uma mitologia microcósmica que puxa elementos de diversos títulos semelhantes, o show nunca alcança seu pleno potencial e se rende a fórmulas cansativas e repetitivas para delinear a história.

O escopo da narrativa é pautado no suspense e no drama, acompanhando incontáveis produções similares da plataforma e de outras gigantes do streaming e unindo seus vários títulos originais em um mesmo lugar. À medida que conhecemos a traumática história de Alex, que se sente responsável pela morte de uma vítima quando trabalhava no departamento de polícia de Detroit, e Laura, que precisa lidar com fantasmas de um passado distante que explicam sua personalidade complacente e quase apática, percebemos que Martin se aproveita de temáticas adotadas por nomes como David E. Kelley, Coralie Fargeat e Gore Verbinski para instigar os espectadores – e isso funciona, ao menos no princípio.

O capítulo de estreia serve para colocar as peças em um intrincado tabuleiro, com os movimentos sendo pensados com minúcia extrema pelo time de roteiristas conforme acompanhamos a jornada dos protagonistas. Além do casal mencionado no parágrafo acima, o público é apresentado à relação quase fraternal entre Abbie e Leila, que se recusam a seguir os padrões impostos por seus pais ou pela escola em que estudam. Em uma tentativa desesperada de consertar as coisas, os pais de Abbie contratam os seguranças da academia para sequestrá-la e levá-la sob custódia para as mãos de Evelyn – e impulsionando Leila a deixar tudo para trás e resgatar a melhor amiga. Todavia, ela também é pega e, encarcerada em meio a terapias verborrágicas e hipnoses implacáveis, ela passa cada minuto de seu precioso tempo esquadrinhando um plano para sair de lá.

Os deslizes não tardam muito a aparecer: de um lado, temos a competente direção de Euros Lyn, que divide o cargo ao lado de Renuka Jeyapalan e John Fawcett e parte de uma ideia familiar e prática, que não oferece muitas coisas novas, mas não tem a pretensão de oferecer inovações estéticas. Acompanhados de uma fotografia claustrofóbica e labiríntica, além de uma paleta de cores que indica constante perigo, melancolia e complacência, o time de realizadores acerta em construir a atmosfera de tensão – mas encontra as barreiras de um roteiro pouco inspirado e de diálogos que, inadvertidamente, dançam entre o melodrama exagerado e a comédia acidental, manchando o ritmo e o que é proposto ao público.

Em contrapartida, o elenco faz o que pode para se esquivar desses erros e se torna o melhor aspecto da atração: Martin e Gadon nutrem de uma boa química, que é explorada a fundo à medida que as coisas ficam mais aterrorizantes e perigosas, enquanto Lind e Topliffe nos carregam no arco que envolve a academia e seus outros “estudantes”. Entretanto, é Collette quem rouba os holofotes ao eternizar Evelyn Wade não apenas como mais um ótimo papel de sua célebre carreira, mas como uma odiável, sarcástica e condescendente vilã que reitera a atriz como uma das melhores de sua geração.

Desobedientes pode ter um escopo muito interessante e ambicioso, mas não sabe o que fazer com essas ideias e se esquece de, ao menos, tentar dar um passo maior que a perna para fornecer algo de novo ao gênero. Apesar das boas atuações e de elementos técnicos e artísticos funcionarem, o resultado é aquém do esperado e nos leva a pensar o que poderia ter acontecido caso o projeto explorasse todo o seu potencial.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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