Apesar de ter ganhado uma reputação consideravelmente controversa em meio a declarações bastante egocêntricas, Alejandro G. Iñárritu se firmou como um dos maiores cineastas das últimas décadas. Tendo feito sua estreia em 2000 com o poderoso suspense ‘Amores Brutos’, o cineasta encontrou uma identidade única que explorou em diversos projetos – normalmente imbuindo densas narrativas dramáticas ou tragicômicas com uma preocupação estilística irretocável,como visto em produções como ‘Babel’ (2006), ‘Birdman’ (2014) e ‘O Regresso’ (2015), estas duas últimas lhe rendendo vitórias consecutivas na categoria de Melhor Direção no Oscar. E, quatro anos depois de ter escorregado com o esquecível ‘Bardo’ (2022), ele está de volta com um ambicioso projeto que recebeu o nome de ‘Digger’.
Com lançamento agendado para o dia 1º de outubro nos cinemas nacionais, o longa recruta o popular astro de ação Tom Cruise para uma das investidas mais inesperadas e ousadas de sua conhecida carreira, trazendo-o como Digger Rockwell, um abastado magnata da indústria petrolífera que se tornou o homem mais poderoso do mundo – e que se vê em uma enrascada de proporções catastróficas quando, ignorando todos os protocolos de segurança ambiental e os incontáveis e-mails que sua equipe lhe enviou, uma de suas missões de perfuração numa plataforma ocasiona na ruptura de uma gigantesca calota polar que está em direção à Europa.

Reunindo-se com Ganesh (Riz Ahmed), um dos cientistas que contratou para auxiliá-lo na perfuração, Digger participa de uma cúpula de emergência com o presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman), e membros do alto escalão do governo e das forças militares para analisar quais são os piores cenários – que, como podemos imaginar, se concretizam: tsunamis em massa assolam a costa da Europa, deixando centenas de milhares de desabrigados, além de incontáveis mortes, levando o protagonista a arquitetar um plano para salvar a todos em meio a um surto ególatra que nos convida a uma grandiosa e épica sátira pós-apocalíptica.
Ao longo de quase 130 minutos, Iñárritu faz um ótimo trabalho em construir uma história que, a princípio, parece nos levar em uma direção, mas que logo se transforma em uma sucessão de reviravoltas metalinguísticas que tira sarro não apenas dos vários títulos do gênero – como o recente ‘Não Olhe para Cima’, de Adam McKay -, mas nos convida para uma jornada espiritual que não pensa duas vezes antes de firmar críticas contundentes a duas das personalidades mais expressivas da extrema-direita (o presidente Donald Trump e o empresário Elon Musk). Aqui, o realizador se alia a Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman para esquadrinhar, em uma proposital caricatura, a impiedosa ambição humana e a forma como a complacência é algo que se repete ao longo da história.

Como já mencionado nos parágrafos acima, a narrativa desenrola-se em uma epopeia recheada de viradas súbitas que trazem ritmo e dinamismo às mensagens que Iñárritu pretende entregar ao público. E, diferente de outros diretores que mergulharam em território similar, ele consegue construir um receptáculo de sarcasmos inteligentes que se mesclam com um agourento prospecto ambientalista e político – que não isenta qualquer pessoa de culpa. Porém, o realizador não cria um personagem anti-heroico e passível de redenção, e sim alguém que é tão execrável em suas atitudes que o torna, infelizmente, palpável demais quando colocado no fervoroso cenário sociopolítico atual.
Um dos destaques técnicos destina-se à escalação do vencedor do Oscar Emmanuel Lubezki, que já colaborou com Iñárritu, como diretor de fotografia. Conhecido por sua preferência pela luz natural, o projeto permite que Lubezki traga referências de seu trabalho em ‘Birdman’ para uma afeição teatral e que nos exige uma certa suspensão da realidade para compreendermos o que se delineia à nossa frente – e que denota uma preferência por uma câmera em semi-contra-plongée, explorando o senso de superioridade dos personagens e contribuindo para espécies de pinturas cinematográficas fabulescas e bastante contraditórias.

Cruise demonstra um comprometimento aplaudível como Digger Rockwell, fragmentando-se em duas performances diferentes que reiteram sua versatilidade artística e que o permite afastar por completo das familiares investidas em filmes de ação – como ‘Top Gun’ e ‘Missão: Impossível’. Apesar de soar um pouco canastrão no primeiro ato do longa-metragem, as escolhas são justificadas à medida que o enredo ganha mais camadas. Todavia, é Goodman quem rouba nossa atenção com um irretocável exagero performático como Compson, transformando-se cena a cena através de um camaleônico empenho que praticamente lhe garante uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. E, compondo esse incrível time de atores e atrizes, temos a presença de Sandra Hüller como Emma, meia-irmã de Digger; Michael Stuhlbarg como o covarde vice-presidente dos Estados Unidos; e Jesse Plemons em uma breve aparição como o magnético Kenny.
‘Digger’ é mais uma entrada excepcional à invejável filmografia de Iñárritu e, não pensando duas vezes antes de elevar temas importantes à enésima potência, une comédia, drama e suspense sob uma atmosfera satírica que não perde a mão em qualquer momento – e que transforma a obra em uma das melhores do ano.
Lembrando que o longa chega aos cinemas brasileiros em 1º de outubro.



