Em uma era com padrões de beleza rígidos e pouca diversidade nas telas e nas passarelas, Tyra Banks teve uma ideia que revolucionou não apenas a televisão norte-americana, mas também a percepção do público em relação ao mundo da moda. Com seu reality competitivo ‘America’s Next Top Model‘, Banks tinha a intenção de desafiar os padrões da indústria, dando destaque a uma pluralidade de corpos, estilos e etnias. No entanto, ao invés de inspirar uma nova geração de mulheres, o programa se tornou uma peça monstruosa da máquina que estava tentando combater.
Apesar de ter se tornado um fenômeno de audiência em seus primeiros ciclos, o reality foi gradativamente perdendo a atenção do público – seja por conta das polêmicas nos bastidores, seja por causa dos desafios cada vez mais absurdos que afastaram a produção de sua proposta original. Foi somente durante a pandemia de COVID, um período longo de quarentena que forçou as pessoas a ficarem em casa assistindo televisão, que o reality foi redescoberto e ganhou uma sobrevida. Mas os absurdos do programa não passaram batidos sob a ótica de uma nova geração, e a feiura do reality obcecado pela busca da beleza foi novamente colocada em foco.

A série documental da Netflix, ‘America’s Next Top Model: Choque de Realidade‘, explora superficialmente algumas das maiores controvérsias do programa, mas não consegue se aprofundar em nenhuma dessas questões. Todos os envolvidos comentam sobre os incidentes de forma clínica e distante, como se tudo fosse apenas um produto de seu tempo e a culpa pertencesse a toda uma era de insensibilidade midiática. Em determinado momento, Tyra culpa até mesmo o público pelos extremos do programa: “Vocês estavam pedindo por isso. Os espectadores queriam mais, mais e mais.”
Os únicos depoimentos que despertam qualquer tipo de sentimento real são das participantes, mas nem mesmo aqui ganham o protagonismo que merecem, tendo que dividir um limitado tempo de tela com jurados, executivos e produtores que pouco têm a dizer.

Ironicamente, um dos momentos mais infames do programa – quando Tyra perde o controle e grita com uma participante (“Eu estava torcendo por você, todos nós estávamos torcendo por você. Como você se atreve?”) – empalidece em comparação a outras polêmicas envolvendo body shaming, transformações radicais e, principalmente, agressão sexual.
Apesar da produção deixar claro que o bem-estar das participantes nunca foi a prioridade dos produtores, o caso da concorrente Shandi Sullivan (Ciclo 2) vai além e expõe o pior lado da indústria do entretenimento. Vítima de negligência, ela teve sua história explorada e vilanizada em rede nacional. Sobre o incidente, o produtor Ken Mok defendeu que as meninas sabiam que estavam sendo filmadas e declarou: “Para o bem ou para o mal, aquele foi um dos momentos mais memoráveis da série.”
Ao tentar não apontar dedos e apenas comentar superficialmente sobre suas polêmicas, esta série documental soa desonesta. É como uma limpeza de imagem que serve exclusivamente para mostrar que todo este lado feio ficou no passado e foi consequência de um tempo diferente (apesar das mesmas críticas terem sido apontadas durante a exibição original), abrindo espaço para um futuro que promete “aprender com seus erros”. Então não é de se espantar que a Tyra Banks já tenha anunciado planos para um novo ciclo de ‘America’s Next Top Model‘. Mas será que ela realmente aprendeu com seus erros ou está fadada a repeti-los?




