Guerra de Tronos

Quando soubemos lá atrás da produção de Duas Rainhas (Mary Queen of Scots), o pensamento coletivo foi só um: Oscar. Veja estes elementos e diga se não concorda. Primeiro, se trata do novo trabalho de duas jovens atrizes do momento, recém saídas de indicações ao prêmio da Academia – Saoirse Ronan, de Lady Bird, e Margot Robbie, de Eu, Tonya. Segundo, este é um drama de época sobre a corte britânica e uma clássica trama histórica, gênero adorado pela ala mais velha dos votantes. E terceiro, a direção de uma mulher – coisa que depois da indicação de Greta Gerwig, imaginava-se virar uma constante. Bem, o filme não emplacou como deveria – o que não diminui seus muitos predicados.

Indicado merecidamente nas chamativas categorias de figurino e maquiagem, Duas Rainhas se tornou um filme “quase”, daqueles que chegaram perto, geraram falatório, mas terminaram passando reto na época de premiações. Baseado no livro ‘Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart’, de John Guy, o roteiro foi adaptado por Beau Willimon – um especialista em conspirações políticas entranhadas, tendo no currículo textos como os da série House of Cards e do filme Tudo Pelo Poder (2011).

A história fala sobre a colisão de realezas entre Mary Stuart, Rainha da Escócia, e verdadeira herdeira do trono do Reino Unido – devido à sua linhagem familiar – e a Rainha Elizabeth I, regente da Inglaterra. As tramoias de bastidores da corte vão escalando até o desfecho trágico. Elizabeth não possuía herdeiros, ou sequer era casada, e de saúde frágil começa cada vez mais a se tornar suscetível a influências externas e a ser conduzida de acordo com a maré, mesmo reconhecendo como equivocadas algumas de suas decisões. Ela sabia que Mary era a verdadeira e legítima Rainha. Por outro lado, a Rainha da Escócia, mais decidida e imponente, ditava suas regras, desafiava sua corte e inclusive colocava a prima (a Rainha da Inglaterra) contra a parede clamando o que era seu por direito – numa das cenas mais belas plasticamente, o único encontro entre as duas (que pode nunca ter acontecido de fato).

Mary tratou de casar e gerar um herdeiro, que assumiu o trono depois de Elizabeth. Todas as suas decisões eram estratégicas. O que não a tornava uma mulher fria, muito pelo contrário. Em seus retratos, as duas meninas de ouro da nova geração de Hollywood sobressaem-se. Apesar das prévias, como cartazes e trailers, não se engane, este é um filme de Saoirse Ronan. A ruiva domina grande parte da projeção, deixando Robbie como participação de luxo. Ronan é pura energia em sua atuação, desde cenas onde despeja diálogos de forma vibrante até desempenhos mais ousados. Sua Mary Stuart é brilhante e ao mesmo tempo arrogante, inteligente e firme.

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Sabemos que o trabalho de maquiagem de um filme é eficiente quando se propõe e tem êxito em “enfeiar” uma beleza como a da musa Margot Robbie. Usando uma prótese no nariz, aos poucos a personagem de Robbie vai se deteriorando devido a uma doença epidêmica que adquire, custando-lhe a beleza. Com o rosto marcado e os cabelos secos e escassos, a estrela se transforma em outra pessoa diante de nossos olhos, incrédulos com tamanho perfeccionismo da equipe técnica. Esta jogada para escanteio não eclipsa a performance da atriz, que já se provou dona de grande talento e não apenas um rostinho bonito. Ainda mais quando nem o rostinho bonito temos.

Fora as atuações virtuosas e uma parte técnica pulsante, a diretora Josie Rourke conduz a narrativa de forma dinâmica e de fácil acesso a todo tipo de público. A cineasta mistura o charme clássico de obras assim com um discurso moderno, mostrando que muito ainda permanece igual. É fácil notar esta conexão entre séculos proposta pela diretora, onde percebemos a força feminina guiada por mulheres independentes e, já naquela época, empoderadas, que decidiam sobre o destino de nações. Este frescor de modelagem é um dos grandes trunfos de Duas Rainhas, um filme elegante, contundente e dono de um discurso muito atual.

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