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Crítica | Eddington – Ari Aster Transforma a Pandemia em Tragicomédia Política e Violenta


Onde a intolerância entre os extremos políticos pode nos levar? Ari Aster responde com sarcasmo e desespero em Eddington, seu quarto longa-metragem, que abandona o horror psicológico literal para mergulhar no terror social contemporâneo. Em uma tragicomédia rocambolesca — tão absurda que parece familiar — o diretor norte-americano constroi uma paródia dos tempos atuais, em que a polarização virou estilo de vida. Armentistas versus identitaristas: duas caricaturas que as redes sociais insistem em apresentar como espectros reais da política. Aster não está interessado na precisão ideológica, mas sim no espetáculo da ignorância.

Inspirado pelo caos de maio de 2020, Eddington recria uma cidade fictícia no Novo México que se transforma em palco daquilo que se tornou o nosso cotidiano: disputas discursivas entre ciência e negacionismo, paranoia e bom senso, sanidade e desinformação. É um microcosmo de uma decadência global, onde a pandemia da Covid-19 serve menos como pano de fundo e mais como lente de aumento para o colapso da convivência.



Joaquin Phoenix interpreta o xerife Joe Cross, um homem consumido pela retórica do ressentimento e das meias-verdades, cuja cruzada pessoal é derrotar o prefeito Alex Garcia (Pedro Pascal), um político latino que tenta manter a ordem e promover medidas básicas de saúde pública. Entre os dois, há uma terceira protagonista: as redes sociais. Ou melhor, a rede social — um organismo onipresente e mutante que define o que é real, quem é vilão e como manipular a percepção coletiva.

Aster não tem pudor em ridicularizar os vícios da comunicação contemporânea: o discurso inflamado, a construção de narrativas sem base factual, a fabricação de inimigos e a espetacularização da tragédia. Em uma das cenas mais marcantes, Joe grava um vídeo acusando Garcia de crimes contra sua esposa (Emma Stone) e outras atrocidades — não porque acredita nisso, mas porque é estratégico.

Duas vezes ganhadora do Oscar, Stone parece fazer uma participação especial como a esposa depressiva, confinada durante a pandemia e devastada por uma tragédia pessoal. Ela encontra acolhimento, no entanto, na figura de um guru espiritual (interpretado por Austin Butler), que encarna com precisão os falastrões da fé — com discursos religiosos inflamados e promessas de um único caminho para a salvação.

(Foto de Antonin THUILLIER / AFP)

Mais do que uma crítica à direita ou à esquerda, Eddington é um retrato da falência do debate público — da substituição da política por um reality show onde os participantes não querem governar, apenas vencer. Aster dirige com precisão cirúrgica, alternando o grotesco com o patético, a sátira com o horror, o cômico com o trágico. O riso, aqui, é sempre desconfortável, pois estamos a um passo da realidade de Guerra Civil, de Alex Garland.

No fim das contas, o que começa como uma disputa discursiva — ainda que repleta de fake news, deboche e cinismo — deságua numa reviravolta explosiva. O embate entre Joe Cross e Alex Garcia abandona qualquer verniz de civilidade e escala para uma violência desmesurada, num terceiro ato que transforma Eddington num faroeste moderno — ou melhor, num anti-faroeste, onde já não há diferença entre mocinhos e vilões. Todos estão armados, todos estão certos, todos têm um celular em punho.

Aster filma esse colapso como se fosse o último ato de uma peça ridícula que esqueceu de ser tragicômica e passou direto para o grotesco. Tiros são disparados com a mesma facilidade com que se compartilha uma teoria conspiratória. Grupos se organizam como milícias digitais que saíram da tela direto para as ruas. O velho espírito do Velho Oeste ressurge não como nostalgia, mas como distopia: um território onde a lei é a opinião pessoal e a verdade, um detalhe opcional.

Embora a narrativa nos apresenta um grande ganhador corportivo no ato final, na verdade, não há herois em Eddington. Nem vilões absolutos. O que existe é um amontoado de personagens cegos por suas certezas, dispostos a tudo — literalmente tudo — para vencer. O xerife e o prefeito tornam-se versões um do outro, espelhando-se num autoritarismo disfarçado de “salvação”. No duelo final, quem vence é a verdadeira protagonista: a máquina que pouco se importa se o discurso da vez é de direita ou de esquerda — o que importa é fazer as engrenagens girarem e gerar riqueza para poucos, sob o verniz de progresso para todos. 

Com seu humor mórbido até o último minuto, Aster não nos escandaliza, surpreende ou aterroriza — ele escala verdades. A violência em Eddington cresce tanto que os tiros sobre tiros fazem o filme perder parte da graça, embora ganhe em ação. Para alguns, esse clímax pode parecer uma ruptura do tom; para outros, é coerente com o espiral de loucura. Ainda assim, temos alusões às comédias de erros no estilo de Fargo, dos irmãos Coen, sempre com um desfecho irônico, onde a tragédia vira espetáculo.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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