Crítica | Emma Thompson e Judy Greer estrelam o descompensado suspense ‘O Frio da Morte’


Emma Thompson já eternizou incontáveis papéis ao longo de sua carreira, reiterando-se projeto a projeto como uma das maiores atrizes não apenas de sua geração, mas de todos os tempos. Em mais de seis décadas como atriz, Thompson imortalizou uma versatilidade invejável que a permitiu singrar entre projetos como a comédia shakespeariana ‘Muito Barulho por Nada’, a adaptação ‘Razão e Sensibilidade’, a dramédia criminal ‘Cruella’ e o divertido musical ‘Matilda’. Agora, ela está de volta com um ambicioso e interessante projeto que mistura suspense e sobrevivência e que chegou aos cinemas nacionais: ‘O Frio da Morte’.

A trama nos apresenta a Thompson como Barb, uma mulher que recentemente ficou viúva e que viaja para um longínquo lago esquecido no meio do Minnesota, onde irá cumprir com o último desejo de seu falecido marido: despejar suas cinzas nas águas congelantes do pequeno e idílico cenário onde tiveram seu primeiro encontro e onde se apaixonaram. Porém, as coisas tomam um rumo inesperado e mortal quando, preparando-se para ir embora, ela vê uma jovem garota (Laurel Marsden) fugindo de um enfurecido homem (Marc Menchaca), que conheceu em uma breve parada numa pequena propriedade quase soterrada pela neve.

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Resolvendo investigar, Barb descobre que a menina, chamada Leah, foi raptada por um casal formado pelo homem já mencionado e pela Moça de Roxo (Judy Greer), que, como vemos logo de cara, sofre de uma doença que pouco a pouco a mata. Para tanto, ela precisa de um transplante de fígado – e encontra em Leah sua salvação, visto que ela queria tirar a própria vida antes de ser sequestrada. A partir daí, Barb resolve ajudá-la da maneira que pode, transformando-se em uma espécie de habilidosa salvadora que usa os conhecimentos que o marido lhe ensinou há tantas décadas, lutando contra o tempo não apenas para salvar uma inocente, mas para sobreviver em uma inóspita região castigada pela solidão e pelo isolamento.

Seguindo os passos de incontáveis projetos do gênero de ação e de thriller, o diretor Brian Kirk faz o que pode para nos envolver por pouco mais de uma hora e meia, destinando o primeiro ato para nos apresentar aos personagens da trama e a backstories que se entrelaçam em um enregelante suspense – e alcançando sucesso notável ao menos na primeira metade do filme. Tendo títulos como ‘Game of Thrones’ e ‘Os Tudors’ na carreira, Kirk sabe como manejar a câmera, construindo um paralelo entre a força descomunal de uma natureza implacável e o fio psicológico que se apodera da protagonista e dos coadjuvantes, como se o objetivo principal fosse dar a Barb o seu tão merecido arco de redenção, paz e tranquilidade.

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A nossa heroína, encarnada com maestria por Thompson em uma honesta e despojada performance, conecta-se imediatamente com o medo e a desesperança de Leah – e o fato de ela e o marido nunca terem tido filhos reacende em seu âmago um sonho perdido e que desperta nela instintos quase primordiais de proteção maternal. Guiando-nos por esse microcosmos ao mesmo tempo vasto e claustrofóbico, a construção da personalidade de Barb ganha certa profundida com a incisiva fotografia de Christopher Ross e a dissonante trilha sonora assinada por Volker Bertelmann.

Todavia, essa sólida e instigante atmosfera logo é açoitada por um roteiro desconexo e desconjunto, fruto da colaboração entre Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb. Enquanto os aspectos técnicos e artísticos são certeiros em sua completude, o enredo sofre para não ceder aos convencionalismos do gênero, mas, várias vezes, se rende a diálogos fracos que não condizem com o talento do elenco. Thompson, como já mencionado, é a linha condutora de uma sucessão de eventos que a arremessam em um tour-de-force tardio e que nutre de uma bem-vinda química com Marsden. Todavia, constantes incongruências transformam os antagonistas da trama em uma regurgitação dos clássicos antagonistas canastrões dos anos 1990, destituindo-os do senso de urgência e de psicopatia que esperaríamos.

À medida que nos aproximamos do ato de encerramento, percebemos que o projeto não possui a sustância necessária para uma história ao menos satisfatória, perdendo a mão ao tomar decisões descompensadas e profusas que exigem que o público amarre as pontas soltas da maneira que bem entender. E, ao apostar fichas em um melodramático desfecho, o gostinho de insatisfação e de frustração nos acompanha à medida que saímos da sala do cinema – nos levando a imaginar que ‘O Frio da Morte’ poderia ter sido muito melhor do que é.

Lembrando que o filme estreia em 19 de fevereiro nos cinemas nacionais.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.