Crítica livre de spoilers.
Nicole Kidman é uma das atrizes mais conhecidas, prestigiadas e prolíficas do mundo do entretenimento, tendo aparecido em incontáveis produções no cinema e na televisão. Fazendo sua estreia em 1983, Kidman já conquistou quatro indicações ao Oscar (incluindo uma vitória na categoria de Melhor Atriz por ‘As Horas’) e retorna aos holofotes praticamente todos os anos – com títulos recentes que incluem o thriller ‘Holland’ e as séries ‘O Casal Perfeito’ e ‘Expatriados’. Agora, ela está de volta com mais uma colaboração com o Prime Video: ‘Scarpetta’.
Inspirada na saga literária homônima de Patricia Cornwell, que assume a função de produtora executiva da atração, a narrativa é centrada em Kay Scarpetta (Kidman), chefe-legista da Comunidade da Virgínia que retorna à ativa quando um corpo é achado em meio aos trilhos de uma estação ferroviária. Unindo-se ao ex-detetive Pete Marino (Bobby Cannavale) para investigar o bizarro e chocante crime, Kay se reencontra com pessoas de seu passado e percebe que o homicídio pode estar atado ao caso que lhe garantiu reconhecimento na área em que atua – e que, trazendo fantasmas de quando ainda era uma jovem médica, pode prenunciar um erro de julgamento que coloca um ponto de interrogação em suas inenarráveis habilidades investigativas.

A personagem principal traça similaridades com Marcella Farinelli Fierro, patologista revolucionária que se tornou conhecida por aplicar tecnologias forenses avançadas para esquadrinhas mistérios aparentemente insolucionáveis e encontrar o verdadeiro culpado de uma gama de casos agourentos e inexplicáveis. E, considerando que o novo projeto original da gigante do streaming funciona como um drama procedural criminal com toques de suspense, Kidman faz um sólido trabalho ao encarnar a complexidade fria e calculista de Kay – dividindo o papel com a incrível Rosy McEwen, que ganhou destaque com o filme ‘Blue Jean’ e ao integrar o elenco da 7ª temporada da antologia ‘Black Mirror’. Navegando por assuntos não resolvidos e por traumas que insistem em assombrá-la, Kay é o ponto-chave para compreendermos essa intrincada atmosfera que se estende por décadas.
Kidman não é a única vencedora do Oscar a fazer parte dessa ambiciosa atração: Jamie Lee Curtis (‘Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo’) dá vida a Dorothy Scarpetta, conhecida autora de livros infantis e irmã mais velha de Kay, nutrindo de uma relação complicada e cheia de altos e baixos com a protagonista – que datam de uma tragédia familiar que culminou com a morte do pai e que, desde então, as colocou em caminhos muito diferentes que estão em constante conflito. Ariana DeBose (‘Amor, Sublime Amor’), dá vida a Lucy Farinelli-Watson, filha de Dorothy que singra pelo luto após ter perdido a esposa e que se torna peça essencial tanto dos controversos laços entre a mãe e a tia, quanto da investigação que se desenrola.

Acompanhadas de Cannavale como o supracitado Peter Marino e Simon Baker como Benton Wesley, é notável como o enredo é recheado de tramas e subtramas que preenchem cada segundo dos episódios – mas que, de maneira incisiva, constroem um amontoado de frenéticas linhas narrativas que nunca é trabalhada como deveria. Liz Sarnoff, que assume as funções de showrunner e diretora, tenta ao máximo condensar as histórias de Cornwell; porém, ela se rende a várias fórmulas do gênero que almejam a uma ambição desnecessária e que tangenciam um pedantismo artístico que não deveria ter qualquer espaço na série (e que, em partes, despe a obra de seu caráter de entretenimento).
Enquanto o jogo entre passado e presente é de suma importância para unir os assassinatos investigados pela jovem Kay e por sua contraparte mais velha, a construção dessa divisão cronológica é pincelada com muitos detalhes que tornam a experiência dos espectadores cansativa e de difícil digestão. A unidade estilística existe em meio às investidas de David Gordon Green, Charlotte Brändström e Ellen Kuras na direção – nomes populares no circuito audiovisual -, mas o desejo de criar uma experiência sinestésica e complexa não atinge o objetivo por completo e soa mais como um projeto empírico com muitas pontas soltas.

Há uma intercorrência estrutural que mancha os pilares da série, que é não se desvencilhar das fórmulas de tantos outros suspenses da televisão e do cinema que, ano a ano, se transformam em regurgitações sem brilho e que apenas emulam uns aos outros. É claro que a comprometida presença do elenco consegue nos instigar a continuar assistindo aos capítulos, mas, em última instância, ‘Scarpetta’ fica no meio do caminho com uma trama novelesca e excessivamente dramática que comete o crasso equívoco de não ser memorável.
Lembrando que a 1ª temporada completa está disponível no Prime Video.

