Crítica | Eu Sou Mais Eu - Kéfera em Sessão da Tarde de Volta a 2004

Crítica | Eu Sou Mais Eu - Kéfera em Sessão da Tarde de Volta a 2004

Nota:

O conceito de voltar no tempo para refletir sobre as decisões do passado já é batido no cinema. A continuação de produções deste tipo, no entanto, busca sempre trazer uma mensagem sobre como encarar o presente de forma plena. Em Eu Sou Mais Eu, o gênero se mistura a uma sátira às jovens celebridades que acreditam ser mais importantes que qualquer pessoa no universo.

De início a piada funciona quando a cantora pop Camila Mendes (Kéfera Buchmann) é confrontada por seu colega do passado (João Côrtes) a reviver sua adolescência, mas no auge da sua carreira ela não quer lembrar da sua aparência desleixada e a humilhação que passava na escola. No mesmo dia, ela encontra um desafeto do passado (Giovanna Lancellotti), que desencadeia as traumatizantes lembranças daquela época.

Como em todos filmes de viagem no tempo, a protagonista recebe a visita de um ser imaginário (Estrela Straus) responsável por fazê-la aprender uma lição. Por meio de uma selfie, Camila acorda no seu quarto desarrumado, sem silicone nos seios, com os cabelos despenteados e peças de roupas questionáveis, no ano de 2004.

O susto inicial dura alguns segundo e, logo, a interpretação de Kéfera como uma adolescente desajeitada e vítima de bullying soa forçada, como se a atriz não conseguisse se encaixar nesta personalidade. Para alegria do espectadores, esta fase logo passa e a personagem decide que precisa viver o passado com a sua atual personalidade, assim Kéfera volta a ser ela mesma também.


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A direção de Pedro Amorim (Divórcio) abusa das cenas em câmera lenta ressaltando momentos sem motivo para destaque, sendo uma cópia do recurso utilizada nas comédias estadunidenses, como em Perfeita é a Mãe (2016). Contudo, neste exemplo a escolha funciona para evidenciar as extrapolações dos personagens, já na comédia nacional apenas para prolongar as tomadas. Apesar de desgastante, a opção não compromete o enredo que ainda consegue ser engraçado ao brincar com algumas diferenças dos últimos 15 anos.

Os principais pontos de apoio e piada são os celulares antecessores aos smartphones, a escova progressiva, e as videolocadoras. A música também faz parte do cenário nostálgico, com destaque para o sucesso de Rouge e a música chiclete Ragatanga, ainda temos uma versão de Máscara, de Pitty, interpretada pela protagonista. Como esta é a música que encerra a produção fica a questão se a mensagem era a letra desta canção, mas os roteiristas esqueceram de introduzir no script.

Para a nova geração, as canções são uma descoberta, já para os adolescentes daquela época os momentos de festa e sala de aula fluem como recordações. Contudo, a trama é bastante rasa e o relacionamento familiar - com a mãe e o falecido avô - é mal conduzido, tanto quanto as questões de amadurecimento. Se a personagem de 30 anos volta ao corpo de uma adolescente de 17 anos, a maturidade falaria mais alto ou ela passaria por um processo de amadurecimento, mas esta hipótese nem é cogitada.

Embora o enredo lembre a narrativa invertida de De Repente 30 (2004) ou, ainda bem mais parecido, com o francês Camille Outra Vez (Camille redouble, 2012), Eu Sou Mais Eu termina sem uma trajetória de reflexão da personagem, ela não muda nada, apenas apoia um amigo em um momento ridículo e o seu futuro continua quase exatamente o mesmo ao voltar. Como se o filme inteiro fosse um engodo para fazer piadas das mudanças entre 2004 e 2018. 

Com a sua quarta experiência no cinema, Kéfera Buchmann se distancia cada vez mais da sua imagem de celebridade da internet, mas ainda não conseguiu um papel que solidifique sua iniciante carreira de atriz. Eu Sou Mais Eu diverte como os filmes da Sessão da Tarde nos anos 90, mas é bem mais simplório que Quero Ser Grande (1998) e a já citada comédia romântica De Repente 30.


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