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Crítica | Falando a Real – Indicado ao Globo de Ouro, Harrison Ford é Destaque na Complexa Segunda Temporada


De uns anos para cá a sociedade moderna tem falado mais abertamente sobre a importância de se preservar a saúde mental das pessoas. Sem equilíbrio entre corpo, mente e coração, não há pessoa que consiga render socialmente no trabalho, na escola, na faculdade, nas relações interpessoais. Mas, muitas vezes, a parte difícil é identificar, assumir as pequenas falhas, os mínimos distúrbios que nos abalam psicologicamente e nos desviam de um dia produtivo. Tudo isso se torna ainda mais complexo quando os envolvidos são justamente os profissionais da saúde mental, como vemos com muita clareza na segunda temporada de ‘Falando a Real’, que chegou aos assinantes da AppleTV+ no fim de 2024.

Depois de conseguir se reerguer emocionalmente, Jimmy (Jason Segel) estreita laços com sua filha, Alice (Lukita Maxwell), mas segue tratando de maneira diferenciada a seus próprios pacientes, envolvendo-se demais nos problemas deles. Enquanto isso, Alice busca perdoar o passado, mas, no caminho, acaba abalando sua amizade com sua melhor amiga, Summer (Rachel Stubington). Gaby (Jessica Williams) se mantém sempre alto-astral, mas precisa encarar grandes mudanças na sua vida pessoal. Até mesmo o casal perfeito, Liz e Derek (Christa Miller e Ted McGinley) acabam sendo abalados por conta de erros e ansiedades que vêm à tona. Com tanta coisa acontecendo na vida de todos eles, seria possível encontrar o equilíbrio para não deixar os assuntos pessoais intervir nas relações interpessoais?



Com doze episódios de cerca de meia hora cada, ainda que com o viés da comédia a segunda temporada de ‘Falando a Real’ (Shrinking, no original) mostra que é mais fácil falar do que fazer, e que, às vezes, o simples parece muito mais complexo. Partindo do mote “para seguir em frente no futuro, é preciso resolver as pendências do passado”, o roteiro de Brett Goldstein e Jason Segel aponta que mesmo os mais bem-resolvidos (os psicólogos, terapeutas e psiquiatras) também precisam cuidar de si mesmos, e que problemas muito simples que não são resolvidos no momento da ação podem se tornar grandes obstáculos em nossas vidas.

O que torna ‘Falando a Real’ uma série tão carismática é a naturalidade com que os personagens interagem, com diálogos muito próximos da realidade e situações comuns ao cotidiano moderno. Especificamente os diálogos, proferidos em sua maioria de maneira passivo-agressiva, eleva o nível de intimidade dos personagens de modo que o espectador se sente parte daquela turma, e sente empatia pelos dramas enfrentados por eles.

Embora os primeiros episódios mantenha a evolução da trama em banho-maria, os dois terços finais dos episódios vão mostrando que muitas vezes é muito mais difícil fazer do que falar; orientar, do que seguir os próprios conselhos. Para os fãs de ‘How I Met Your Mother’, temos, ainda, participação especial de Cobie Smulders (a eterna Robin), em interação com Jason Segel, o que torna tudo mais saudosista.

Enquanto o enredo se aprofunda nas questões pessoas dos personagens, é Harrison Ford que dá um verdadeiro banho de atuação, e mostra por que mereceu a indicação como melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro esse ano. Misturando sensatez e muita rabugice, Ford constrói um Paul forte e sensível, que, diante da mudança brusca que sofre a partir de uma notícia, começa a se abrir mais para as novidades que a vida ainda pode proporcionar. Seu discurso, nos minutos finais do último episódio, é extremamente emocionante – tão real, que fica a dúvida se o que vemos é ficção ou se é o próprio ator abrindo seu coração para o elenco e para os espectadores. Nesta parte, é recomendado deixar um lencinho à mão.

Emocionante e profunda, a segunda temporada de ‘Falando a Real’ mantém a potência e a originalidade apresentadas anteriormente e convida o espectador a um mergulho profundo em seu próprio inconsciente.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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