Crítica | Felicidade Por Um Fio – Aceitação do cabelo natural é o foco desta produção da Netflix

Crítica | Felicidade Por Um Fio – Aceitação do cabelo natural é o foco desta produção da Netflix

Nota:

O cinema é a forma de arte que mais reflete o tempo em que vivemos. Por isso, com o atual cenário de aceitação do cabelo natural, estava mais do que na hora de aparecer um filme feito para o grande público que abordasse esta temática – já que, até então, a maioria das produções sobre o assunto eram em forma de documentário e voltadas para um nicho, como o elogiado Kbela, da brasileira Yasmin Thayná, e Good Hair, de Chris Rock. Mas a Netflix, que tem focado bastante  em seus filmes em 2018, resolveu dar um passo a frente ao lançar “Felicidade Por Um Fio” (Nappily Ever After),  comédia romântica dirigida por Haifaa Al-Mansour, a primeira cineasta mulher da Arábia Saudita.

O longa é uma adaptação do livro homônimo da escritora Trisha Thomas, e tem o diferencial de focar sua história na transição capilar e empoderamento negro da protagonista Violet Jones (interpretada pela ótima – e belíssima – atriz Sanaa Lathan). Só pelo trailer, quem vive ou se interessa por essa temática já fica com vontade de ver a trama; mas, no final dos 98 minutos, temos um resultado que é ainda melhor do que o teaser deixa transparecer. Fui surpreendida tão positivamente, que terminei de assistir ao filme já indicando para todo mundo! Isso porque a produção é quase de “utilidade pública” para que todos entendam como a ditadura da beleza e da perfeição é cruel com as mulheres, ainda mais quando os traços não seguem o padrão do que é considerado belo. Quando – como é o caso aqui – existe toda uma cobrança e sofrimento só pelo fato do cabelo não ser igual ao da maioria das atrizes de TV e modelos de comerciais; ainda mais se a pressão vem desde muito cedo, no período em que ainda estamos moldando nossa personalidade.

Esse é justamente o caso de Violet Jones, publicitária bem-sucedida que tem nos cabelos longos e impecavelmente alisados o foco da sua segurança e feminilidade. No flashback de sua infância, exibido logo no início do longa, a menina aparece destacada das demais crianças que brincam na piscina para não estragar o cabelo, enquanto sua voz já adulta narra ao fundo que as garotas naturalmente lisas brincavam descabeladas e sem se preocupar com a aparência, algo que ela não podia fazer. Mas, mesmo com vontade, Violet parecia firme em resistir à tentação de pular na água – para o alívio de sua mãe, que queria ver a filha sempre perfeita. No entanto, quando um garotinho a desafia a dar um mergulho, a garota não resiste, acaba estragando sua escova e vira alvo de risadas e zoações das demais crianças por causa do volume da sua textura natural – situação facilmente identificável por quem também tinha o cabelo assim na fase em que o liso reinava como absoluto.



Dizem que certos acontecimentos dessa fase da vida geram traumas e marcam para sempre; então, não é difícil entender a obsessão da protagonista por seus cabelos quando, já adulta, ela acorda mais cedo que o namorado para refazer a escova e se esquiva de certos contatos durante o sexo para que ele não tire nenhum fio do lugar.  Essas cenas podem parecer muito distantes para quem não vive essa realidade, mas quem passou por essa fase de complexos com o cabelo – como foi meu caso durante mais de 20 anos da minha vida – vai se identificar com cada um desses momentos muito bem escolhidos para o filme; por mais que, em algumas partes do início, eles até beirem o caricato.

Com tudo isso, imaginar Violet sem sua fiel chapinha parecia quase impossível; mas a mudança no comportamento em relação ao seu cabelo se dá depois de uma sequência de acontecimentos errados. Um jato de borracha que estraga a escova perfeita justo no dia do seu aniversário e seu suposto jantar de noivado; um corte químico em um salão de beleza, que a fez recorrer a uma peruca para disfarçar o problema; um chihuahua no lugar do anel; e o término do namoro após a afirmação de “estar com você é como estar em um primeiro encontro há dois anos” em vez do esperado “Eu te amo! Quer casar comigo?”. Para completar, Violet ainda perde uma importante conta no trabalho, e tem um encontro que não dá muito certo em uma das primeiras noites que resolve sair para a balada para achar alguém – exibindo um loiro fatal e um corte na altura dos ombros como novo look.

Assim, depois de ficar no limite com tantos desastres na vida pessoal, bêbada e arrasada após um confronto com o ex-namorado, ela chega em casa e protagoniza a cena mais icônica do filme: o momento em que, impulsivamente, decide raspar todo o cabelo. Com risos e lágrimas se misturando, a maquiagem dos olhos borrada, e To Build a Home, do Cinematic Orchestra, tocando ao fundo, Sanaa Lathan se desfaz dos fios de verdade em frente às câmeras e emociona ao representar o misto de dor e libertação vividos pela personagem no momento. É daquele tipo de cena que faz valer o filme inteiro, e toca principalmente quem sabe bem o que esse desprendimento do cabelo longo e perfeito representa.

A partir daí, o filme ganha um fôlego novo ao nos apresentar uma protagonista que precisa se redescobrir após se ver sem a parte que mais ocupou seu tempo durante toda a vida. Sanaa – que merece muitos elogios por sua atuação – transita muito bem entre a mulher tensa, com tiques de perfeição, e a que começa a se soltar por focar em valores pessoais que vão muito além da vaidade. Como aliada para essa mudança, sua personagem conta com a pequena Zoe (vivida pela carismática Daria Johns)  – que, muito diferente de seu “eu” na infância, exibe seu afro com orgulho e conta com um pai que incentiva sua beleza natural. Este ponto, inclusive, é um dos maiores trunfos do filme: mostrar como a família tem uma função extremamente importante na construção da imagem da criança negra. Enquanto a protagonista cresceu com uma mãe que queria mostrar para o mundo que a filha era impecável com seu cabelo liso irretocável, Zoe tem ao seu lado um pai que não permite que ela mude a textura dos fios e aprenda a cuidar deles ao natural.

Em uma das cenas perto do fim do longa, Violet até diz que se pergunta até hoje como seria sua vida se sua mãe a tivesse abraçado e a chamado de linda depois do episódio da piscina em vez de recriminá-la, como se ela realmente estivesse errada por mostrar sua verdadeira textura ao pular na água. O diálogo emociona e termina em uma sequência linda de libertação, que envolve um acerto de contas da nova mulher que a personagem se tornou com suas amarras do passado.

Mas, mesmo com tantos momentos tocantes e diálogos que conseguem ser didáticos sem subestimar a inteligência do público, “Felicidade Por Um Fio” só peca ao tentar dar uma importância desnecessária à vida amorosa da protagonista em algumas partes. Sua relação com o ex-namorado tem uma função importante em vários pontos da narrativa; no entanto, por mais que protagonize alguns momentos bonitos com Violet e represente a alternativa dos cosméticos naturais em um mercado cheio de químicas que estragam os cabelos cacheados e crespos, Will (Lyriq Bent), pai de Zoe, não faz tanta diferença assim como par romântico da protagonista e não tem um desenvolvimento tão bom a ponto de nos fazer torcer pelos dois.

Além disso, a jornada de descoberta da personagem é tão incrível e tão individual, que a necessidade de colocar uma terceira peça na trama soa como algo que só foi feito para cumprir tabela e não deixar de lado  o clássico triângulo amoroso das comédias românticas. Ele poderia facilmente fazer parte do enredo apenas como um amigo sem causar grandes alterações no que realmente importa na história.

Porém, tirando esse detalhe, a Netflix merece apenas aplausos pela produção. Desde a escolha do elenco aos pontos que aborda para narrar a trajetória de aceitação de alguém que se desgastava para chegar próximo do que era considerado bonito, “Felicidade Por Um Fio” é o tipo de filme sobre representatividade que estava faltando. Como mulher negra que passou por transição capilar, penso em como teria sido incrível se existisse uma história assim nos tempos em que eu achava que era impossível ser bonita sem cabelo liso – porque, ao ligar a televisão, eu sempre via um comercial ou uma cena de novela que deixavam bem claro que o afro era feio, errado. Então, além de admirar o fato do longa levar esse tipo de mensagem para o grande público, fica a satisfação pessoal de saber que agora, finalmente, também somos protagonistas. E que muitas meninas vão saber que está tudo bem alisar se essa for a sua real vontade, mas que apostar no natural sempre pode ser uma opção – e, talvez, quem sabe, o melhor caminho para se encontrar.





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