Crítica livre de spoilers.
A Apple TV+ é, de longe, o streaming que mais oferta um conteúdo de qualidade para seus assinantes – e, em seus poucos anos de existência, já nos entregou obras-primas da televisão contemporânea, como ‘The Morning Show’, ‘O Estúdio’, ‘Slow Horses’ e tantas outras que navegam por uma multiplicidade de gêneros estonteante e vibrante. E, em meio a tantos títulos, alguns passam despercebidos, como é o caso da subestimada comédia ‘Fortuna’.
Estrelada por Maya Rudolph, a trama acompanha Molly Wells, uma bilionária recém-divorciada que resolve mudar de vida e, com sorte, desapegar da luxuosa vida que ostenta sem ao menos perceber para o mundo. Para tanto, ela resolve se tornar membro regular da ONG que financia, conhecendo um grupo de funcionários apaixonado por seus trabalhos e que lidam com seus próprios dilemas: Sofia (Michaela Jaé Rodriguez), Howard (Ron Funches), Arthur (Nat Faxon), Rhonda (Meagen Fay) e Ainsley (Stephanie Styles). Acompanhada de seu fiel escudeiro, Nicholas (Joel Kim Booster), Molly pouco a pouco percebe seus privilégios e navega pelo mundo real após anos em letargia ao lado do ex-marido, John (Adam Scott), procurando se tornar uma pessoa melhor e fazer bom uso de seu exorbitante dinheiro.

Caminhando para a terceira temporada, as expectativas não poderiam estar mais altas, principalmente com os eventos inesperados do ciclo anterior: Molly por fim enfrentou uma verdade que insistia em esconder, arriscando-se ao declarar seu amor por Arthur – mas sem perceber que estava se metendo no meio de um relacionamento. Em um ímpeto, ela e Nicholas partem em uma viagem para qualquer lugar, e é a partir daí que a inédita iteração se inicia. Ao longo de dez incríveis episódios, o time criativo da atração mostra que voltou com força com tiradas sagazes e hilárias, apostando em tramas profundas que convergem para um ponto em comum e irrompem em um glorioso compilado de episódios que merece toda a nossa atenção.
Rudolph está de volta como a cativante e carismática Molly, arriscando-se ao torná-la ainda mais complexa e em um arco de redescobrimento da vida – mostrando que está pronta para recomeçar a vida como uma pessoa que quer fazer o bem e que sempre se levanta após cair, principalmente com a ajuda de sua “família escolhida”. Todavia, a atriz também faz sua estreia como roteirista no programa, assinando a narrativa do primeiro episódio e dando o tom certeiro da temporada com uma acidez envolvente e uma dosagem certeira entre comédia e melodrama.

A estrela do show é acompanhada de performances inegavelmente fabulosas de um elenco que, episódio a episódio, torna-se mais competente no que faz. Se no ciclo de estreia os atores e atrizes já haviam nos conquistado com seus frementes personagens, aqui se lapidam a ponto de brilharem como uma supernova. Booster rende-se a um inesperado e sólido tour-de-force com Nicholas, mergulhando em um vórtice de frustração por não saber onde pertence e como se sentir completo e tomando decisões que o ajudam a amadurecer; Rodriguez, por sua vez, encanta ao mergulhar de cabeça em um lado de Sofia que não tínhamos visto, explorando uma vulnerabilidade inebriante.
Funches tem seu merecido destaque como um “mediador” entre os personagens, firmando-se como o escape cômico da própria comédia, enquanto Faxon nos diverte com seu despojo performático e sua incrível química com Rudolph – ambos mostrando-se comprometidos o bastante para nos guiar em uma história de amor, de erros e de acertos que nos arrebata a cada minuto. E, contando com presenças ilustres que vão desde o retorno de Scott em mais uma “odiável” rendição até a participação de nomes como D’Arcy Carden e Henry Winkler, os protagonistas e coadjuvantes nos relembram mais uma vez a razão pela qual nos apaixonamos por eles.

Um dos elementos que, na opinião deste que vos escreve, mais atiça a curiosidade do público é o fato de parecer navegar fora do espaço-tempo ao nos guiar por caminhos errôneos antes de uma conclusão (ou quase conclusão) imprevisível – e tudo isso conforme explora temas de importância significativa para discussão, seja no tocante à consciência de classe tardia, à problemática dos bilionários ou à crescente disparidade social que lucra em cima da pobreza sistemática. E, dentro desse espectro, os novos episódios se mostram mais aguçados que nunca, mesmo utilizando alguns conhecidos tropos aqui e ali.
A terceira temporada de ‘Fortuna’ é a melhor da série até o momento, conduzindo-nos com leveza e gargalhadas em sólidos arcos que culminam em um surpreendente finale, deixando-nos ansiosos para o próximo ciclo.
A série retorna com novos episódios no dia 15 de outubro.

