segunda-feira, janeiro 12, 2026

Crítica | Gabriel Faryas e Cirillo Luna estrelam o poderoso e denso thriller erótico ‘Ato Noturno’

CríticasCrítica | Gabriel Faryas e Cirillo Luna estrelam o poderoso e denso thriller erótico 'Ato Noturno'

A dupla formada por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon sempre teve uma identidade bastante peculiar ao longo de uma carreira recheada de aclamadas produções – e um fio em particular parece unir suas obras: a expressividade artística queer. Seja com ‘Tinta Bruta’, ‘O Ninho’ ou ‘Preservativo’, os cineastas trazem uma perspectiva diferenciada de costumeiros dramas do gênero ao unir arte, filosofia e política em enredos que exploram as relações de poder e a sexualidade de maneira intrínseca uma à outra – e é a partir dessa ideia que surge o thriller erótico Ato Noturno.

Exibido tanto no Festival do Rio quanto no Festival de Berlim, e conquistando incontáveis elogios pela densa trama levada às telonas, o longa é centrado em Matias (Gabriel Faryas), um jovem rapaz que tenta engrenar na carreira de ator, mas se sente um tanto quanto ofuscado pela presença de seu colega de elenco e colega de quarto, o charmoso e impetuoso Fabio (Henrique Barreira). Em uma determinada noite, assim que sai do ensaio de uma peça prestes a estrear, ele resolve se encontrar com o misterioso Rafael (Cirillo Luna), após se conhecerem em um aplicativo de relacionamentos. Rafael, então, o leva para um casarão aparentemente abandonado, onde transam pela primeira vez – e dão um inadvertido início a um complexo enlace cujas repercussões se desenrolam em lutas de hierarquia, desejo e convenções sociais.



Matzembacher e Reolon, também responsáveis pelo roteiro, utilizam o lúdico e a crueza para fazer questão de que todas as tramas convirjam para um ponto em comum: a farsa. Rafael, apresentando-se como “sigiloso” no seu perfil no aplicativo, revela estar concorrendo à prefeitura da cidade onde moram e, por essa razão, qualquer tipo de relacionamento público com Rafael não pode existir. Vestindo a máscara de uma pessoa que não existe em sua essência, Rafael transforma o palanque político em seu palco – e o mesmo se diz de Rafael: o jovem, ator por profissão, se transmuta personagem a personagem para navegar nas exigências silenciosas de seu parceiro.

Todavia, tudo isso muda quando ambos desenvolvem um fetiche conhecido como cruising – isto é, manter relações sexuais em locais não privados ou particulares. A forma como os protagonistas se fundem e se conectam através desse desejo irrefreável e incontrolável funciona como metáfora para um enfrentamento do status quo a que foram impostos, talvez inclusive existindo mais em um âmbito abstrato do que palpável. À medida que suas respectivas vidas começam a degringolar no véu social que os cobre de realmente serem quem são, a adrenalina que emerge com esse controverso ato sexual é o que os motiva a seguir em frente e a encontrar, em meio a proibições, uma liberdade que os coloca em rota de colisão.

Os diretores não escolheram o título da obra como Ato Noturno por qualquer motivo: assim como o enlace narrativo entre os personagens principais, o nome do longa parte de uma ambiguidade urgente que se destina tanto ao fetiche de Rafael e Matias, quanto a uma menção direta à arte teatral – algo que os dois fazem tanto em um microcosmos quanto em outro. Para tanto, essa duplicidade de sentido se estende para os aspectos técnicos, que certamente nos chamam a atenção pelo cuidado máximo: Matzembacher e Reolon constroem duas vias que se colidem pela presença mística e etérea da noite, em que os protagonistas, vivendo em mundos tão diferentes, se veem preenchidos pela sobriedade monótona de uma realidade inescapável até irromperem em instintos animalescos que são banhados pelas trêmulas luzes da cidade.

É notável como os diretores se apropriam, de maneira sólida, de estéticas exploradas tanto em suas obras anteriores quanto de mestres do cinema – que ganham uma tradução original e aplaudível com o filme. David Lynch parece ser uma escolha certeira para a construção de um universo surrealista, que retira Fabio e Matias do “mundo real” e os arremessa a uma atmosfera pincelada com suspense, drama, paixão e sexo; já a presença constante dos tons vibrantes do vermelho, em contraste com a melancolia permanente do azul, traz um esquema à la Dario Argento, focado nos detalhes corporais como entidades vivas. Ademais, a fotografia de Luciana Baseggio encontra espaço de sobra para um movimento de expansão e retração que coloca os amantes em companhia e solidão.

O objetivo do projeto encontra ainda mais sucesso com a presença magnética de Faryas e de Luna. Funcionando tanto em conjunto quanto separados, os atores trazem uma densidade imaculada a Matias e Rafael, nos guiando por quase duas horas em uma montanha-russa de ímpetos e desejos que se mescla a uma crítica socioantropológica do que significa existir e se manter na existência. A dupla, dotada de uma química arrepiante, é acompanhada de outros nomes que incluem o já mencionado Barreira, Ivo Müller e Larissa Sanguiné.

Ato Noturno abre o circuito de filmes nacionais em 2026 de maneira quase irretocável, tropeçando aqui e ali em alguns diálogos expositivos em demasia. Todavia, os pontuais deslizes não são páreo para a beleza nada óbvia e nada convencional que a narrativa constrói para o público, transformando o que poderia ser um longa costumeiro e cômodo em um impactante thriller erótico.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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