InícioCríticasCrítica | George Clooney comanda a honesta e inofensiva dramédia 'Jay Kelly',...

Crítica | George Clooney comanda a honesta e inofensiva dramédia ‘Jay Kelly’, de Noah Baumbach


Noah Baumbach tem uma visão bastante singular sobre o mundo – e utiliza a complexidade do ser humano como força-motriz de histórias de amadurecimento e de perseverança, por mais minimalistas que sejam. Responsável por produções como ‘Margot e o Casamento’, ‘Frances Ha’, ‘Ruído Branco’ e ‘História de um Casamento’, Baumbach frequentemente trabalha com a esposa, Greta Gerwig, e une comédia e drama para retratar os altos e baixos da própria existência. Agora, o cineasta está de volta com um ambicioso projeto intitulado Jay Kelly – uma dramédia estrelada por George Clooney e Adam Sandler que aposta na metalinguagem para pontuações filosóficas e sociais.

Na trama, Clooney interpreta o popular ator titular, Jay Kelly, que ascendeu ao estrelato de maneira meteórica e é conhecido mundo afora. Após terminar as filmagens de seu último projeto, Jay começa a refletir sobre a vida e sobre seu relacionamento com as filhas, acreditando ter perdido boa parte da infância e da adolescência das meninas em prol das burocracias e dos comprometimentos exigidos pela vida hollywoodiana. E, nas duas semanas de folga que conseguiu antes de rodar o próximo longa, Jay decide deixar tudo para trás para encontrar a caçula, Daisy (Grace Edwards), em sua viagem para a Europa ao lado dos amigos, levando sua equipe em uma inofensiva jornada de redescoberta.



Em mais de duas horas, Baumbach navega por sátiras sutis que não criticam apenas a predatória atmosfera da indústria cinematográfica, mas a impalpabilidade da fama em detrimento da humanidade. Responsável pelo roteiro ao lado de Emily Mortimer, que interpreta Candy no projeto, o realizador transforma Jay Kelly em um encontro entre as icônicas e inalcançáveis estrelas de cinema da Era de Ouro de Hollywood, como Clark Gable e Humphrey Bogart, mas nos convida aos bastidores das manchetes e dos holofotes ao levar o protagonista em uma tentativa de recuperar as glórias de um passado no anonimato – colocando-o em xeque constante com as escolhas que fez e os arrependimentos que carrega.

De certa maneira, a ambientação do filme é carregada com uma melancolia permanente que guia não só Jay, mas os outros personagens – afinal, cada um é engolfado nesse impulso existencial que cruza os oceanos. Temos Ron (Adam Sandler), assessor de Jay, que tenta convencê-lo a focar em suas responsabilidades, mas cede aos caprichos do cliente e procura encontrar um meio-termo entre seus desejos e o que é imprescindível; Liz (Laura Dern), publicista do astro e movida por um senso corporativista metódico que entra em conflito com questões não resolvidas com seu ex-noivo, Ron, que abandonou aos pés da Torre Eiffel; e até mesmo Daisy, que se sente invadida pelo comportamento impetuoso do pai, que a encontra através de faturas de cartão de crédito.

O tema principal do filme, e que reflete o apreço de Baumbach por questões existencialistas, já nos é apresentada no letreiro que precede a primeira cena do projeto – uma frase de Sylvia Plath que discorre sobre o desafio de interpretar a si mesmo. Jay funciona como materialização dessa declaração ao não saber mais quem é, deixando se levar pela necessidade de provar e de imortalizar personagens, que o vão destituindo de sua própria essência até o epifânico momento em que decide ir atrás da filha. Destrinchando-se nas subtramas que acompanham os coadjuvantes, os aspectos filosóficos ganham espaço de forma singela e, apesar de se manterem numa superficialidade cômoda, funcional.

Enquanto a relação entre sua vida pessoal e profissional se torna mais intrincada, seja pela fotografia ambígua de Linus Sandgren ou pela cândida trilha sonora de Nicholas Britell, o destaque destina-se aos atores: Clooney diverte-se ao interpretar Jay Kelly, talvez trazendo experiências próprias para compor o arco tour-de-force que o acompanha até o encerramento do longa; Sandler volta a nos encantar com seus meandros dramáticos, entregando um dos papéis mais sólidos de sua carreira; e Dern retoma colaboração com Baumbach em uma rendição que ecoa seu trabalho em ‘História de um Casamento’. Billy Crudup também dá as caras como Tim, ex-colega de Jay que acusa o astro de ter usurpado tudo o que deveria ter ao roubar um importante papel – e que dá início à jornada de rendição do protagonista.

Ainda que Jay Kelly seja um dos filmes mais honestos de Noah Baumbach, ele não é livre de erros – e, em determinado momento, percebemos que a longa duração do projeto não é justificada, valendo-se de limitações impostas pela narrativa em si e por repetições que tentam ser mascaradas pela mesma sutileza empregada na construção dos personagens. Entretanto, o resultado é aprazível o suficiente para nos comover e para nos satisfazer em sua completude – deixando que o elenco brilhe e nos guie nessa trajetória.

Jay Kelly

“Não deixe sua vida passar despercebida”: Laura Dern se emociona ao falar sobre ‘Jay Kelly’

Noah Baumbach revela processo de criação de ‘Jay Kelly’: “Não sabia exatamente o que era”

 

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS